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Anna Akhmátova

Hoje, tenho muito que fazer;
devo matar a memória até ao fim.
Minha alma vai ter de virar pedra.
Terei de reaprender a viver.

anna akhmátova e marina tsvétaïeva

Anna
Morte, já que tens de vir, porque não agora?
Espero-te. E não é fácil.
Apaguei a luz e abri a porta
para ti, simples, miraculosa.
Toma para ti a forma que quiseres
sê o obus mortal que se despenha,
o ágil malfeitor que se aproxima, sorrateiro,
os vapores escuros da tifóide,
ou mesmo essa lenda que inventaste
e que todos sobressalta,
basta ver a ponta desse chapéu azul
na cabeça do porteiro, transido de pavor.
Para mim, já não importa. Agitam-se, revoltas, as águas
do grande rio siberiano
e brilha para sempre a Estrela Polar
e o relance azul dos olhos bem-amados
vela-se, num último calafrio.

Marina
Se pudesses saber, tu que passas atraído
por outros olhares
que não o meu, quanto fogo consumi,
quantas vidas vivi em vão,
quanto ardor, que arrebatamentos
por causa de uma fugitiva sombra ou de um ruído...
E o meu coração, inutilmente incendiado,
despovoado, desfeito em cinza.
Oh, os comboios que voam pela noite
Que transportam em si os nossos sonhos de partida...
Mesmo que o soubesses, bem sei,
nunca saberias realmente
por que razão a minha palavra irrompe
entre o eterno fumo dos cigarros
e quanta tristeza escura
ruge sob os meus cabelos claros.

E cantou como canta a tempestade
(Assírio e Alvim)

Música para Dimitri Shostakovich

O vestígio de um milagre arde dentro dela,
e só o seu olhar, múltiplo e brilhante,
me dirige a palavra, fala-me de perto,
quando outros receiam aproximar-se.

Quando o último dos amigos despediu de mim o seu olhar,
ela veio deitar-se no túmulo a meu lado
e cantou como canta a tempestade,
como se todas as flores começassem a falar

(Anna Akhmátova)

e eu canto estas palavras


Anna e Marina

Anna Akhmátova:

A verdadeira ternura
não se confunde com mais nada.
E é silêncio.
Em vão, solícito, me cobres os ombros com peles.

E em vão, humilde, me falas do primeiro amor.
Ah, como eu conheço os teus olhares ardentes,
                 incessantes.


Marina Tsvétaieva:

De onde vem esta ternura?
Não são os teus primeiros cabelos
Que afago, e já conheci lábios
Mais sombrios do que os teus lábios.

Brilharam estrelas, depois ficaram pálidas
(de onde vem esta ternura?),
brilharam olhos, tão perto dos meus olhos,
depois, quase se apagaram.

Melhores cantos que estes
ouvi eu no coração da noite
(de onde vem esta ternura?)
gravados no peito do cantor.

de onde vem esta ternura?
E que fazer com ela, ó tu,
o astucioso, o estrangeiro de passagem?
E as tuas pestanas, as mais longas que já vi?

E Cantou Como Canta A Tempestade
Anna Akhmátova
Marina Tsvétaieva
Assírio e Alvim