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henry miller

Há um tema ligado à leitura que merece a nossa atenção dado que implica um hábito difundido e acerca do qual, julgo, pouco foi escrito - refiro-me a ler na retrete. Em rapaz, na busca  de um lugar seguro para devorar os clássicos proibidos, refugiava-me muitas vezes na retrete. Desde essa altura, não o voltei a fazer. Se preciso de paz e sossego , pego no livro e vou para o campo. Não conheço melhor lugar para ler um livro do que as profundezas da floresta. De preferência junto a um riacho.

henry miller

“Out yonder they may curse, revile, and torture one another, defile all the human instincts, make a shambles of creation (if it were in their power), but here, no, here, it is unthinkable, here there is abiding peace, the peace of God, and the serene security created by a handful of good neighbors living at one with the creature world.” 

“If it be knowledge or wisdom one is seeking, then one had better go direct to the source. And the source is not the scholar or philosopher, not the master, saint, or teacher, but life itself - direct experience of life. The same is true for art. Here, too, we an dispense with "the masters.” 

“Surely every one realizes, at some point along the way, that he is capable of living a far better life than the one he has chosen.” 

“Certainly paradise, whatever, wherever it be, contains flaws. (Paradisical flaws, if you like.) If it did not, it would be incapable of drawing the hearts of men or angels.” 

Big Sur and the Oranges of Hieronymus Bosch

Henry miller


Nada mais havia que eu pudesse ou quisesse pedir. Tinha tudo o que um homem pode desejar, e sabia disso. Também sabia que talvez nunca mais o tivesse. Sentia a aproximação da guerra - estava mais perto a cada dia que passava. Mas ainda haveria paz durante um breve período, e os homens ainda se podiam comportar como seres humanos.

O grego está sempre a fazer a mesma coisa pela primeira vez: é curioso, avidamente curioso, e experimental. Experimenta pela experimentação e não para arranjar forma melhor ou mais eficiente de fazer as coisas. Gosta de fazer coisas com as mãos, com o corpo inteiro, com a alma, poder-se-ia também dizer. Assim se perpetua Homero. Apesar de eu nunca ter lido um único verso de Homero, é minha convicção de que o grego da actualidade se mantém inalterado na sua essência.

Mas pela primeira vez na vida sentia-me feliz com a perfeita consciência da minha felicidade. É bom ser-se simplesmente feliz; é um bocadinho melhor saber que se é feliz; mas compreender que se é feliz e saber porquê e como, de que maneira, por que concatenação de acontecimentos ou circunstâncias, e continuar feliz, feliz no ser e no saber, bem, isso ultrapassa a felicidade, é a ventura absoluta, e quem tem juízo na cabeça devia matar-se nesse exacto momento para resolver logo a questão. E era assim que eu me sentia - só não tive a força nem a coragem de me matar naquele sítio e naquele momento.

Ficava horas a fio deitado ao sol, sem fazer nada, sem pensar em nada. Manter a cabeça vazia é uma proeza, uma proeza muito saudável. Passar o dia inteiro em silêncio, não ler jornais, não ouvir rádio, não ouvir bisbilhotices, passar o dia numa profunda e completa preguiça, profunda e completamente indiferente ao destino do mundo é o melhor remédio que uma pessoa pode dar a si mesma. O que se aprende nos livros  escoa-se gradualmente, os problemas liquefazem-se e dissipam-se; os laços rompem-se suavemente; o pensamento, quando condescendemos em entregar-nos a ele, revela-se muito primitivo; o corpo transforma-se num instrumento novo e maravilhoso; olha-se para as plantas, ou para as pedras, ou para os peixes, com olhos diferentes...

A ausência de jornais, a ausência de notícias sobre o que fazem os homens em diferentes partes do mundo para tornar a vida mais ou menos suportável é uma bênção única, e a maior que se pode imaginar. Se conseguíssemos, pelo menos, eliminar os jornais, seria uma grande evolução, tenho a certeza disso. Os jornais geram mentiras, ódio, ganância, inveja, desconfiança, medo, maldade. Não precisamos da verdade, tal como ela nos é servida nos jornais diários. Precisamos de paz, e de solidão, e de ociosidade.