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jorge luis borges

Não restará na noite uma só estrela. 
Não restará a noite. 
Morrerei e comigo irá a soma 
Do intolerável universo. 
Apagarei medalhas e pirâmides, 
Os continentes e os rostos. 
Apagarei a acumulação do passado. 
Farei da história pó, do pó o pó. 
Estou a olhar o último poente. 
Oiço o último pássaro. 
Lego o nada a ninguém. 

jorge luis borges

A verdade é que vivemos a adiar tudo o que é adiável; talvez todos saibamos profundamente que somos imortais e que mais tarde ou mais cedo todo o homem será todas as coisas e saberá tudo.

jorge luis borges

Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Traços de Dúrer, lampiões austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero,
Devo fingir que existem essas coisas.
Fingir que no passado aconteceram
Persépolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.
Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgotável, pura.

o sonho de kafka

Os três sabiam disso.
Ela era a companheira de Kafka.
Kafka a sonhara.
Os três sabiam disso.
Ele era o amigo de Kafka.
Kafka o sonhara.
Os três sabiam disso.
A mulher disse ao amigo:
- Quero que esta noite me queiras.
Os três sabiam disso.
O homem lhe respondeu: Se pecarmos,
Kafka deixará de sonhar-nos.
Alguém soube disso.
Não havia mais ninguém na terra.
Kafka disse a si mesmo:
Agora que os dois partiram, fiquei sozinho.
Deixarei de sonhar-me.

Jorge Luís Borges