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tolentino Mendonça
O amor é o caminho que nos leva à esperança. E está não é uma espécie de consolação, enquanto se esperam dias melhores. Nem é sobretudo expectativa do que virá. Esperar não significa projectar-se num futuro hipotético, mas saber colher o invisível no visível, o inaudível no audível, e por aí fora. Descobrir uma dimensão outra dentro e além desta realidade concreta que nos é dada como presente. Todos os nossos sentidos são implicados para acolher, com espanto e sobressalto, a promessa que vem, não apenas num tempo indefinido futuro, mas já hoje, a cada momento. A esperança mantém-nos vivos. Não nos permite viver macerados pelo desânimo, absorvidos pela desilusão, derrubados pelas forças da morte. Compreender que a esperança floresce no instante é experimentar o perfume do eterno.
paula tavares
Esta manhã doí-me mais do que é costume
A pele
As escarificações
As cicatrizes
Doeu-me a noite de laços e espuma
Dói-me agora a pele
As escarificações as cicatrizes
Dói-me o teu corpo deitado
O silêncio
Os gritos de feixe
Dentro de mim
Le clézio
Assim como a morte é o remate da vida, aquilo que lhe dá forma e valor, aquilo que encerra o círculo, também o silêncio é o fim supremo da linguagem e da consciência.
Tudo aquilo que se diz ou se escreve, tudo o que se sabe, destina-se a isso, a isso verdadeiramente: ao silêncio
daniel faria
homens que são como projectos de casas
em suas varandas inclinadas para o mundo
homens nas varandas voltados para a velhice
muitos danificados pelas intempéries
homens cheios de vasilhas esperando a chuva
parados à espera
de um companheiro possível para o diálogo interior
homens muito voltados para um modo de ver
um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
de si mesmo
homens tão impreparados tão desprevenidos
para se receber
homens à chuva com as mãos nos olhos
imaginado relâmpagos
homens abrindo lume
para enxugar o rosto para fechar os olhos
tão impreparados tão desprevenidos
tão confusos à espera de um sistema solar
onde seja possível uma sombra maior
em suas varandas inclinadas para o mundo
homens nas varandas voltados para a velhice
muitos danificados pelas intempéries
homens cheios de vasilhas esperando a chuva
parados à espera
de um companheiro possível para o diálogo interior
homens muito voltados para um modo de ver
um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
de si mesmo
homens tão impreparados tão desprevenidos
para se receber
homens à chuva com as mãos nos olhos
imaginado relâmpagos
homens abrindo lume
para enxugar o rosto para fechar os olhos
tão impreparados tão desprevenidos
tão confusos à espera de um sistema solar
onde seja possível uma sombra maior
raymond carver
Fear of seeing a police car pull into the drive.
Fear of falling asleep at night.
Fear of not falling asleep.
Fear of the past rising up.
Fear of the present taking flight.
Fear of the telephone that rings in the dead of night.
Fear of electrical storms.
Fear of the cleaning woman who has a spot on her cheek!
Fear of dogs I've been told won't bite.
Fear of anxiety!
Fear of having to identify the body of a dead friend.
Fear of running out of money.
Fear of having too much, though people will not believe this.
Fear of psychological profiles.
Fear of being late and fear of arriving before anyone else.
Fear of my children's handwriting on envelopes.
Fear they'll die before I do, and I'll feel guilty.
Fear of having to live with my mother in her old age, and mine.
Fear of confusion.
Fear this day will end on an unhappy note.
Fear of waking up to find you gone.
Fear of not loving and fear of not loving enough.
Fear that what I love will prove lethal to those I love.
Fear of death.
Fear of living too long.
Fear of death.
I've said that.
arsenii tarkovskii
Pela noite concedias-me o favor,
Abriram-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genuflectia. E ao acordar
Eu diria "Abençoada sejas!"
Sabendo como pretensiosa era a benção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
poemas com cinema II
Psycho
Assaninada no duche
como Marat
mas sem revolução
nem razão
é o sangue aguado dela
vai-se pelo ralo
da banheira
no sentido
dos ponteiros do relógio
nos antípodas
seria ao contrário
porquê?
Adília Lopes
poemas com cinema I
Duas infâncias passaram
por mim: uma, no planetário,
com os espanto dos astros
Outra, com Sal Mineo,
que no seu mundo ansioso
vislumbrou a eternidade
Pedro Mexia
manuel antónio Pina
Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido
e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou e um deles
escreva agora isto como se
acordasse de um sonho que
um outro sonhasse (talvez eu),
e talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,
e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz algures do lado de fora.
jorge luis borges
Não restará na noite uma só estrela.
Não restará a noite.
Morrerei e comigo irá a soma
Do intolerável universo.
Apagarei medalhas e pirâmides,
Os continentes e os rostos.
Apagarei a acumulação do passado.
Farei da história pó, do pó o pó.
Estou a olhar o último poente.
Oiço o último pássaro.
Lego o nada a ninguém.
Não restará a noite.
Morrerei e comigo irá a soma
Do intolerável universo.
Apagarei medalhas e pirâmides,
Os continentes e os rostos.
Apagarei a acumulação do passado.
Farei da história pó, do pó o pó.
Estou a olhar o último poente.
Oiço o último pássaro.
Lego o nada a ninguém.
antónio ramos rosa
Se ao menos eu soubesse recolher
o sangue da tua sombra
e com ele aninhar-me no ser materno
entre uma ténue primavera e um verão ardente
se ao menos este fabuloso anelo não se perdesse no vazio
e eu adormecesse à sombra do teu eco
sentindo jorrar a fonte dos teus olhos sobre o último abismo de silêncio.
sophia de mello breyner
No princípio a casa foi sagrada isto é, habitada não só por homens e vivos como também por mortos e deuses.
mia couto
Os começos dos livros são uma verdadeira delícia
"A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Aquela era a terra onde Jesus haveria de se descrucificar. E pronto, final."
"A morte é como o umbigo: o quanto nela existe é a sua cicatriz, a lembrança de uma anterior existência. A bordo do barco que me leva à ilha de Luar-do-Chão não é senão a morte que me vai ditando suas ordens. Por motivo de falecimento, abandono a cidade e faço a viagem: vou ao enterro do meu Avô Dito Mariano."
( jesusalém / um rio chamado tempo, uma casa chamada terra)
manuel antónio pina
Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido
e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou um deles
escreva agora isso como se
acordasse de um sonho que
um outro sonhasse (talvez eu),
e talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,
e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz algures do lado de fora.
paul éluard
She is standing on my eyelids
And her hair is wound in mine,
She has the form of my hands,
She has the colour of my eyes,
She is swallowed by my shadow
Like a stone against the sky
Her eyes are always open
And will not let me sleep.
Her dreams in broad daylight
Make the suns evaporate
Make me laugh, cry and laugh,
Speak with nothing to say
And her hair is wound in mine,
She has the form of my hands,
She has the colour of my eyes,
She is swallowed by my shadow
Like a stone against the sky
Her eyes are always open
And will not let me sleep.
Her dreams in broad daylight
Make the suns evaporate
Make me laugh, cry and laugh,
Speak with nothing to say
ana hatherly
Não medir a altura do sonho. Não medir a distância de um sorriso. Quando a espuma das ondas chega à areia qualquer coisa de irreversível acontece.
jack kerouac
as únicas pessoas que me agradam são as que estão loucas: loucas por viver, loucas por falar, loucas por salvarem-se
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