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reinaldo moraes

“Meu amigo e conselheiro Nê Valadão mandara um telegrama a Paris no dia do meu aniversário: ‘Parabéns pelos trinta, bostão. O pior já passou’. Adorei essa ideia de que o pior já tinha passado na minha vida. Inseguranças sexuais, profissionais, intelectuais, metafísicas, tudo isso eram relíquias no museu da memória. Agora, mais rodado na vida, tudo era lucro, pelo menos enquanto minha carcaça desse conta do recado dos meus desejos. Era o que eu pensava. “É o que ele pensa”, disseram-me os deuses com seu sorriso marmóreo. Meu projeto de existência era de um hedonismo primário: espremer a vida até a última gota de prazer. Meus guias eram fortes, eu achava; haviam de me fazer cafuné. Não me interessavam as instâncias ditas fundamentais da existência: trabalho, família, política. Vadiagem, alienação poética e individualismo errante, era tudo que eu pedia ao destino. Dona Culpa, velha beata raquítica de bigode e ruga no nariz, Dona Culpa que se fodesse. Um projeto greco-beatnik de existência: ócio e curtição. Voltei pra cama e puxei uma suave palha abraçado à minha Solange de fronha.”