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tolentino Mendonça

O amor é o caminho que nos leva à esperança. E está não é uma espécie de consolação, enquanto se esperam dias melhores. Nem é sobretudo expectativa do que virá. Esperar não significa projectar-se num futuro hipotético, mas saber colher o invisível no visível, o inaudível no audível, e por aí fora. Descobrir uma dimensão outra dentro e além desta realidade concreta que nos é dada como presente. Todos os nossos sentidos são implicados para acolher, com espanto e sobressalto, a promessa que vem, não apenas num tempo indefinido futuro, mas já hoje, a cada momento. A esperança mantém-nos vivos. Não nos permite viver macerados pelo desânimo, absorvidos pela desilusão, derrubados pelas forças da morte. Compreender que a esperança floresce no instante é experimentar o perfume do eterno.

tolentino mendonça

"O verdadeiro hábito é aquele que nos coloca no coração da vida, isto é, no núcleo mais autêntico, nesse lugar onde realmente somos. E a formulação o coração da vida é ao mesmo tempo uma formulação não habitável, se quisermos. Porquê? Porque nós vivemos muito à superfície, vivemos a esbracejar, vivemos a fazer, vivemos a correr, a mover-nos de um sítio para o outro, vivemos das imagens e das representações, vivemos dando respostas às solicitações que constantemente nos são feitas e , raramente mergulhamos no coração da vida.

Há um ensaio de Virgínia Wolf que marcou muito a defesa dos direitos das mulheres, um conjunto de ensaios a que ela deu um título que gostaria de trazer para esta reflexão, porque penso que é daquelas fórmulas iluminantes. o título é "um quarto que seja seu". E no fundo quando falamos de habitar o coração da vida é a isto que nos referimos. Nós precisamos de um quarto que nos pertença. Precisamos de um lugar que nos reflicta, precisamos de um hábito que seja mais que um hábito, isto é, um tipo, uma mania, uma forma de aparecermos a nós próprios e aos outros. Precisamos de um hábito que seja mais do que isso. Um hábito que nos revista, que nos expresse, que decline o silêncio, o mistério, a imensidão, o aberto do nosso próprio ser, e não esta vida condicionada, esta vida diminuída, esta vida cheia de retrações, esta vida que não é vida.

Um dos maiores obstáculos na vida espiritual é a perfeição, ou a ideia de perfeição, ou o desejo de perfeição, porque no fundo é o desejo de sair para fora da nossa vida. De viver uma outra, de imaginar uma outra vida, de viver com a culpa ou viver com a miragem de uma vida que não é a nossa."

tolentino mendonça

O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz que não é

O teu silêncio seja tal
que nem pensamento
o pense

Fazer calar para fazer dizer:
uma injunção paradoxal
o silêncio fala de si

Não sei
não digo
existe em outro lugar tamanho bem?

Quando o templo se esvazia
então brilha
esplêndido

O que por palavras nos será oculto
em intimidade

A história relata o que aconteceu
o silêncio narra
o que acontece

O silêncio não é um modo
de repouso ou suspensão
mas de resistência

Silêncio:
os passos que escuto
não se dirigem para mim

Silêncio:
encontrámos na encosta
flores ainda sem nome

Silêncio:
contemplar a neve
até confundir-se com ela

Há vários silêncios
desde o início aprende a dizer
o plural

O silêncio
não é o oposto
mas o avesso

As palavras ferem
o amor
como tudo o mais

Uma iniciação ao silêncio
nunca foi escrita
nem poderia ser

Tolentino Mendonça

"Muitas vezes Deus prefere
entrar em nossa casa
quando não estamos"

"A vida monástica
é uma forma de nudez
que não se envergonha de si"

"Coisas que não deixam rasto:
o relâmpago na noite
o voo das garças contra a neve"

Silêncio:
na ravina inacessível
o prado em flor

(A papoila e o monge)

uma canção debaixo de um dilúvio


Ocupam-nos com a sua feroz solidão
e conhecemos o seu cheiro, o consumo difuso,
o visível de ambos os lados
Diante deles não é possível dissimilar
a ironia ou a piedade
Esperam por nós entre diversas combinações
à superfície e para além disso
Um amigo é uma machine à habiter
o vento pré-histórico das montanhas geladas
Talvez pertençam a outros mundos
pois nos abraçamos sempre como sobreviventes
Com eles podemos arrancar uma canção
debaixo de um dilúvio

Tolentino Mendonça
Estação Central

A ciência do amor

O amor é um acordo que nos escapa
premissas traficadas sem certeza noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria

Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam

Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam

Tolentino Mendonça
Estação Central

It's time to be clear
Os que falam de mim dizem que sou pobre
Existo à maneira de uma árvore
Tenho diante e atrás de mim a noite eterna
Vacilo, duvido, resvalo
E sei: a maior parte das vezes o amor nasce do erro
transcreve-se a azul ou a negro
sobre passagens, casas inacabadas, alturas remotas

Observá-lo apenas serve
Para tornar contundente a sua forma nunca exactamente igual
A sua incrível velocidade destacada no meio do nada
enquanto a noite se desmorona
sempre mais bela

Tolentino Mendonça
Estação Central

tarde de inverno no parque

Há calmos vazios e clarões
que talvez nos sobrevivam
a velha dama que sacode migalhas da saia
os meninos com emblemas e perguntas difíceis
a silenciosa expedição
do esquilo e o seu regresso
sem embaraço
ao tremor que me falha

não é raro que o dia nos deixe assim:
como se a ausência não fosse ainda ausência,
como se estes flocos
não fossem ainda a neve

Tolentino Mendonça

Está um dia lindo lá fora e eu gostaria tanto de passar a tarde no parque

falar sobre a atenção

“A atenção é a oração. A oração é a atenção”, dizia a Simone Weil. A atenção é que nos faz estar naquilo que fazemos, em cada gesto, é que nos faz habitar o presente.

 Se não estou atento, não vejo. Vivo do meu preconceito. Vivo das ideias adquiridas, tantas vezes falsas. E não acolho. Não pratico uma hospitalidade real. Penso que é isso que falha. Às vezes passam dias e dias e parece que nada acontece, ou que não somos visitados por nada, e isso tem a ver com o facto de não abrirmos o coração à música da alegria que nos visita.

Entrevista a Tolentino Mendonça

a delicadeza do mundo

A delicadeza do mundo chega-nos
através de frases interrompidas
de sementes que nos dispersam
de paralelas pintadas
com uma faca ou uma corda
a mudar com o vento
mesmo aqui, mesmo neste instante
as paredes do mundo não são muralhas
de altura inusitada
mas escadas suaves como fumo

Pudéssemos acordar uma manhã
e descobrir na poça castanha
entre gavetos, folhas apodrecidas
e ramos
que fazemos parte da sua solidão

Tolentino Mendonça

Dedico à minha avó que era a pessoa mais delicada deste mundo
Um pormenor de Piero Della Francesca

A forma de sinceridade requerida
é a mais extrema pobreza:
pela neve sem vincar rasto sempre caminhou
aquele que busca um amor
(José Tolentino Mendonça)
madonna del parto
Travessia

Os nossos dedos são cândidos
com brilhos impressos
e um tempo absorvido dos dois lados
Nos sinos, nos guizos, nas harpas
procuramos sem nenhuma restrição
o fogo e o gelo
a iluminação de um ramo dourado

Há um instante em que as nossas vozes
se fundem e destacam
reluzentes sobre a vida perpétua

Atravessamos a noite com uma vontade irreprimível
de cantar


José Tolentino Mendonça

O Viajante Sem Sono

Uma coisa inocente

Não uses palavras
se me segredas
aquilo que no fundo das nossas mentiras
se tornou uma verdade sublime

Tolentino Mendonça
(De Igual para Igual)
Assírio e Alvim

Apenas um cigarro

As palavras são as mesmas
mas deixei de saber o tempo
para chegar a ti
durante meses e meses
tinha perdido o hábito
as histórias que de noite sonhas
o evidente esplendor que depois
não tomou nenhuma forma

que razão é a deste amor
que tanto se confunde
com o medo

não dizias nada
tinhas de repente uma pressa desesperada
como quem do mundo inteiro
pretendesse apenas
um cigarro

(pai)
fotografo desconhecido

Tolentino Mendonça
(De igual para Igual)
Assírio e Alvim