Porquê? Para quê? Por nada. Para nada.
Mas não perguntes. Passam-se dias que te chamo e não vens. Ou vens mas não és tu. É uma imagem fria de ti como a de tanta coisa que recordo. Ou passas rápida pela minha lembrança e não te deténs um pouco. Mas outros dias nem sequer te chamo, entretido com o banal quotidiano. Sobretudo se vou à aldeia ou à vila para esse quotidiano se cumprir. às vezes acontece que ao regressar tu vens ao meu encontro no corredor. Mas não me dizes nada. Ou sorris apenas à passagem e é tudo o que tens par me dizer. E eu creio que essa distância a que sempre te puseste para eu te amar, como deves estar lembrada.
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vergílio ferreira
Mas não te moveste. Insinuei então a mão entre o pijama e a tua pele. Mas nesse instante cruzaram-se-me na memória os teus modos de dizer que não. Hoje não. Mas isso não tinha que ver com o teu período lunar. E dizias simplesmente não tenho disposição, compreende. E eu revelava sobre mim desencantado. Mas de outras vezes bastava tocar-te com intenção declarada e baixavas arrebatadamente as calças do pijama, a blusa, e sem uma palavra oferecias-te funcional. E eu ficava tão sem saber. Porque eu não podia dizer-te assim não. Desinteressada e por favor para despachares, não. Uma vez disse-to e ficaste furiosa, talvez humilhada, e voltaste a vestir-te rapidamente e voltaste de lado e adormeceste logo. Mas de outra vez avancei. (...) e não havia triunfo no meu disparo e apenas uma espécie de onanismo horrível, contigo a ver. Como no amor com uma fille de joie, que é uma variante da masturbação. (..) Lembro-me de que uma vez, mas estarás já esquecida? Uma vez calhou amarmo-nos com uma intensidade terrível. E no momento em que tudo era de mais e o estouro ia acontecer, saltou-me da boca uma bruta obscenidade. Tu estremeceste brevemente mas tudo era também já de mais para ti e abandonaste-te ao teu excesso. E tudo aconteceu na vertigem que nos tomou. E ficámos ambos deslaçados, deitados de costas. Levantas-te para as tuas abluções mas disseste-me ainda - nunca mais digas isso. Nunca mais. E houve ainda outra vez, que o amor, querida, traz em si a violência da destruição, deve ser das leis da Natureza. (...) E a tua nuca frágil. Beijei-a devoradamente e houve um instante em que tomou uma violência assassina e os meus dentes, os meus dentes. E tu gritaste não, não! E depois em voz já abafada vampirismo não - e eu que te disse? Devo ter-me sentido desarmado humilhado, horror horror, como podia eu destruir-te? (...) E adormeci. Sonhei então que nos amávamos de novo com uma intensidade desabrida. E que tu aceitavas a minha fúria e havia sangue da tua nuca na minha boca e eu senti-me incendiado de destruição. E tu gritavas e eu não sabia se era de dor ou de prazer, devia talvez ser do excesso limite dos dois e isso acelerava-me dentro de mim.
Cartas a Sandra
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