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tarde de inverno no parque

Há calmos vazios e clarões
que talvez nos sobrevivam
a velha dama que sacode migalhas da saia
os meninos com emblemas e perguntas difíceis
a silenciosa expedição
do esquilo e o seu regresso
sem embaraço
ao tremor que me falha

não é raro que o dia nos deixe assim:
como se a ausência não fosse ainda ausência,
como se estes flocos
não fossem ainda a neve

Tolentino Mendonça

Está um dia lindo lá fora e eu gostaria tanto de passar a tarde no parque

requiem

falar sobre a atenção

“A atenção é a oração. A oração é a atenção”, dizia a Simone Weil. A atenção é que nos faz estar naquilo que fazemos, em cada gesto, é que nos faz habitar o presente.

 Se não estou atento, não vejo. Vivo do meu preconceito. Vivo das ideias adquiridas, tantas vezes falsas. E não acolho. Não pratico uma hospitalidade real. Penso que é isso que falha. Às vezes passam dias e dias e parece que nada acontece, ou que não somos visitados por nada, e isso tem a ver com o facto de não abrirmos o coração à música da alegria que nos visita.

Entrevista a Tolentino Mendonça

a delicadeza do mundo

A delicadeza do mundo chega-nos
através de frases interrompidas
de sementes que nos dispersam
de paralelas pintadas
com uma faca ou uma corda
a mudar com o vento
mesmo aqui, mesmo neste instante
as paredes do mundo não são muralhas
de altura inusitada
mas escadas suaves como fumo

Pudéssemos acordar uma manhã
e descobrir na poça castanha
entre gavetos, folhas apodrecidas
e ramos
que fazemos parte da sua solidão

Tolentino Mendonça

Dedico à minha avó que era a pessoa mais delicada deste mundo

Contigo


Acordo na manhã de oiro
entre o teu rosto e o mar.

As mãos afagam a luz,
prologam o dia breve.

Entre o teu rosto e o mar
ninguém deseja ser neve.

Ninguém deseja o veneno
da noite despovoada.

Acorda-me a tua voz,
nupcial, branca, delgada.

Eugénio de Andrade