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primo levi - parte II

A faculdade humana de cavar um nicho para si, de segregar uma carapaça, de levantar à sua volta uma ténue barreira de defesa, mesmo em circunstâncias aparentemente desesperadas, é espantosa e mereceria um estudo aprofundado.

Alberto é o meu melhor amigo. Alberto entrou no lager de cabeça erguida, e vive no lager incólume e incorrupto. Foi o primeiro a perceber que esta vida é uma guerra; não concedeu a si próprio qualquer indulgência, não perdeu tempo a recriminar e a compadecer-se de si mesmo e dos outros, mas desde o primeiro dia foi à luta. Luta pela sua vida, mas mesmo assim é amigo de todos. Sempre reconheci e ainda reconheço nele, a rara figura do homem forte e bondoso, contra o qual se quebram as armas da noite.

Por mais sentido que faça querer definir as causas pelas quais precisamente a minha vida, entre milhares de outras equivalentes, pôde aguentar a prova, creio que devo justamente a Lorenzo o facto de estar vivo hoje; não tanto pela sua ajuda material, quanto por me ter constantemente lembrado com a sua presença, com a sua maneira tão linear e fácil de ser bom, que ainda existia um mundo justo para além do nosso, algo e alguém ainda puro e incontaminado, não corrupto e não selvagem, alheio ao ódio e ao medo; algo que mal se pode definir, uma remota possibilidade de bem, pela qual, porém, valia a pena conservar-se. as personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade está sepultada, ou eles mesmos a sepultaram, debaixo da ofensa que sofreram ou que infligiram a outrém. Mas Lorenzo era um homem; a sua humanidade era pura e incontaminada, estava fora deste mundo de negação. Graças a Lorenzo, aconteceu-me não esquecer que também eu era um homem.

Nós sabemos o que isto significa, porque estávamos aqui no inverno passado, e os outros aprendê-lo-ão cedo. Significa que, ao longo destes meses, entre Outubro e Abril, em cada dez de nós, sete irão morrer. Quem não morrer, irá sofrer minuto após minuto, em cada dia, todos os dias: desde antes do amanhecer até à distribuição da sopa da noite, deverá ter constantemente os músculos tensos, dançar de um pé para o outro, bater com os braços debaixo das axilas para resistir ao frio.

Quando chove, queríamos poder chorar. Estamos em Novembro, já chove há dez dias, e o terreno é como o fundo de um pântano. Tudo o que é de madeira cheira a bolor.

Os meus dias eram alegres e tristes, mas de todos tinha saudade, todos eram intensos e positivos; o futuro estava à minha frente como uma grande riqueza. Da minha vida de então, hoje resta apenas quanto basta para sofrer a fome e o frio; já não sou bastante vivo para ser capaz de pôr termo à minha vida.

(Se isto é um homem)

James Gandolfini

Ao Tony, ao James Gandolfini e por último ao meu pai que adorava "Os Sopranos"

Primo Levi - parte I

Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma felicidade perfeita é igualmente, não realizável. Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados limites são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito.

São poucos os homens que sabem enfrentar a morte com dignidade, e em muitos casos, não são aqueles que se espera. Poucos sabem calar-se e respeitar o silêncio dos outros.

Despedimo-nos, sem demora; cada um se despediu do outro como se despedisse da vida. Já não tínhamos medo.

Imagine-se agora um homem ao qual, juntamente com as pessoas amadas, tiram a casa, os hábitos, a roupa, enfim, tudo, literalmente tudo quanto possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à carência, esquecido da dignidade e bom senso, pois acontece facilmente, a quem tudo perdeu, perder-se a si próprio.

Parece-me nunca ter sofrido, em toda a minha vida, uma humilhação mais atroz do que esta.

E, pela primeira vez desde que estou no campo, a alvorada surpreende-me num sono profundo, e o acordar é um regresso do nada.

Aqui, momentaneamente afastados das blasfémias e das violências, podemos voltar a nós próprios e meditar, e é então que se torna claro que não teremos regresso. Viajámos até aqui nos vagões selados; vimos partir em direcção ao nada as nossas mulheres e as nossas crianças; reduzidos a escravos marchamos mil vezes para trás e para diante, numa fadiga muda, já apagados nas almas antes da morte anónima. Não temos regresso. Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auschwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem.

(Se isto é um homem)

bar primitive

uma noite ao som de discos vinis

Fernando Pessoa

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido...