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john coltrane


e.e.cummings

pode nem sempre ser assim; e eu digo
que se os teus lábios, que amei, tocarem
os de outro, e os teus dedos fortes e meigos cingirem
o seu coração, como o meu em tempos não muito distantes;
se na face de outro os teus suaves cabelos repousarem
nesse silêncio que eu sei, ou nessas
palavras sublimes e estremecidas que, dizendo demasiado
ficam desamparadamente diante do espírito vozeando;

se assim for, eu digo se assim for-
tu do meu coração, manda-me um recado;
que eu possa ir junto dele, e tomar as suas mãos,
dizendo, Aceita toda a felicidade de mim.
Então hei-de voltar a cara, e ouvir um pássaro
cantar terrivelmente longe nas terras perdidas.

it may not always be so; and i say
that if your lips, which i haved loved, should touch
another's, and your dear strong fingers clutch
his heart, as mine in time not far away;
if another's face your sweet hair lay
in such a silence as i know, or such
great writhing words as, uttering overmuch
stan helplessly before the spirit at bay;

if this should be, i say if this should be-
you of my heart, send me a litlle word;
that i may go unto him, and take his hands,
saying, Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face, and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands.

cântico dos cânticos

Minha pomba nos vãos do rochedo na fenda dos barrancos deixa-me ver a tua face deixa-me ouvir a tua voz pois a tua voz é doce e a tua face grata.

Onde foi o teu amado ó mais bela das mulheres onde foi o teu amado nós o buscaremos contigo o meu amado desceu ao seu jardim ao terreno dos aromas para apascentar nos jardins para colher os lírios eu sou para o meu amado e o meu amado é para mim o pastor dos lírios.

tom waits

"When you are young you got nothing but time..."



ben harper

para a Leo que adorava Ben Harper

Waiting on an angel
One to carry me home
Hope you come to see me soon
Cause I don' t want to go alone
I don' t want to go alone

Now angel won' t you come by me
Angel hear my plea
Take my hand lift me up
So that I can fly with thee
So that I can fly with thee

And I'm waiting on an angel
And I know it won' t be long
To find myself a resting place
In my angel's arms
In my angel's arms

So speak kind to a stranger
Cause you'll never know
It just might be an angel come
Knockin' at your door
Knockin' at your door

And I'm waiting on an angel
And I know it won't be long
To find myself a resting place
In my angel's arms
In my angel's arms

Waiting on an angel
One to carry me home
Hope you come and see me soon
Cause I don' t want to go alone
I don't want to go alone
Don' t want to go
I don't want to go alone

Henry miller


Nada mais havia que eu pudesse ou quisesse pedir. Tinha tudo o que um homem pode desejar, e sabia disso. Também sabia que talvez nunca mais o tivesse. Sentia a aproximação da guerra - estava mais perto a cada dia que passava. Mas ainda haveria paz durante um breve período, e os homens ainda se podiam comportar como seres humanos.

O grego está sempre a fazer a mesma coisa pela primeira vez: é curioso, avidamente curioso, e experimental. Experimenta pela experimentação e não para arranjar forma melhor ou mais eficiente de fazer as coisas. Gosta de fazer coisas com as mãos, com o corpo inteiro, com a alma, poder-se-ia também dizer. Assim se perpetua Homero. Apesar de eu nunca ter lido um único verso de Homero, é minha convicção de que o grego da actualidade se mantém inalterado na sua essência.

Mas pela primeira vez na vida sentia-me feliz com a perfeita consciência da minha felicidade. É bom ser-se simplesmente feliz; é um bocadinho melhor saber que se é feliz; mas compreender que se é feliz e saber porquê e como, de que maneira, por que concatenação de acontecimentos ou circunstâncias, e continuar feliz, feliz no ser e no saber, bem, isso ultrapassa a felicidade, é a ventura absoluta, e quem tem juízo na cabeça devia matar-se nesse exacto momento para resolver logo a questão. E era assim que eu me sentia - só não tive a força nem a coragem de me matar naquele sítio e naquele momento.

Ficava horas a fio deitado ao sol, sem fazer nada, sem pensar em nada. Manter a cabeça vazia é uma proeza, uma proeza muito saudável. Passar o dia inteiro em silêncio, não ler jornais, não ouvir rádio, não ouvir bisbilhotices, passar o dia numa profunda e completa preguiça, profunda e completamente indiferente ao destino do mundo é o melhor remédio que uma pessoa pode dar a si mesma. O que se aprende nos livros  escoa-se gradualmente, os problemas liquefazem-se e dissipam-se; os laços rompem-se suavemente; o pensamento, quando condescendemos em entregar-nos a ele, revela-se muito primitivo; o corpo transforma-se num instrumento novo e maravilhoso; olha-se para as plantas, ou para as pedras, ou para os peixes, com olhos diferentes...

A ausência de jornais, a ausência de notícias sobre o que fazem os homens em diferentes partes do mundo para tornar a vida mais ou menos suportável é uma bênção única, e a maior que se pode imaginar. Se conseguíssemos, pelo menos, eliminar os jornais, seria uma grande evolução, tenho a certeza disso. Os jornais geram mentiras, ódio, ganância, inveja, desconfiança, medo, maldade. Não precisamos da verdade, tal como ela nos é servida nos jornais diários. Precisamos de paz, e de solidão, e de ociosidade.



Ruy Belo

"finge-se que a cama é uma jangada e depois a morte chega. esperada e celebrada com uma vida. e depois.

a própria vida é uma jangada de cujo rumo desconfiamos. como esta avenida. e o amor. e tudo, afinal."