A palavra após longo silêncio; certo é que,
Distantes ou mortos todos os outros amantes,
Oculta pela sombra a luz hostil,
Corridas as cortinas sobre a noite inimiga,
Dissertemos e dissertemos
Acerca do supremo tema da Arte e do Canto:
A decrepitude física é sabedoria; jovens
Nos amávamos e éramos ignorantes
Speech after long silence; it is right,
All other lovers being estranged or dead,
Unfriendly lamplight hid under its shade,
The curtains drawn upon unfriendly night,
That we descant and yet again descant
Upon the supreme theme of Art and Song:
Bodily decrepitude is wisdom; young
We loved each other and were ignorant
Sophia de Mello Breyner Andresen
Lutaram corpo a corpo com o frio
Das casas onde nunca ninguém passa,
Sós, em quartos imensos de vazio,
Com um poente em chamas na vidraça.
No ponto onde o silênsio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.
Apesar das ruínas e da morte,
Onde semprea cabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
(Poemas do livro Poesia, Assírio e Alvim)
Das casas onde nunca ninguém passa,
Sós, em quartos imensos de vazio,
Com um poente em chamas na vidraça.
No ponto onde o silênsio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.
Apesar das ruínas e da morte,
Onde semprea cabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
(Poemas do livro Poesia, Assírio e Alvim)
Franz Kafka
Há dois pecados mortais humanos, dos quais todos os outros derivam: a impaciência e a negligência. Foi por causa da impaciência que os homens foram expulsos do Paraíso e é por causa da negligência que não retornam. Mas talvez exista apenas um único pecado mortal: a impaciência. Foi por causa da impaciência que os homens foram expulsos e é por causa da impaciência que não retornam.
(Aforismos)
(Aforismos)
Arvo Pärt
Infinito e castidade… não sei explicar, é necessário conhecê-lo, é necessário senti-lo. É necessário procurá-lo, é necessário descobri-lo. É necessário descobrir tudo, não apenas o meio de o exprimir, é necessário ter a necessidade disso. É necessário desejá-lo, é necessário desejar ser assim. Tudo o resto vem por si próprio. Então, teremos ouvidos para o ouvir e olhos para o ver.
O Canto Gregoriano ensinou-me que um segredo cósmico se encontra escondido na arte de combinar duas ou três notas. O que é algo que os compositores de doze notas desconhecem. A estéril democracia entre notas matou em nós qualquer sentimento vivo.
Simplificando, nessa época [circa 1970], já me tinha distanciado de todos os movimentos políticos e das lutas pela liberdade. Acredito que alguém que queira mudar o mundo tem de começar não no que lhe é exterior, mas que o início dessa transformação é no seu interior. E essa é uma conquista que se alcança milímetro a milímetro.
Para poder continuar [após uma crise] é preciso atravessar um muro. Para mim, isto sucedeu por uma conjugação de alguns, por vezes acidentais, encontros. Um deles, que em retrospectiva se revelou de importância capital, foi com uma pequena peça do repertório Gregoriano que ouvi quase por acaso durante alguns segundos numa loja de discos. Nela descobri um mundo que desconhecia, um mundo sem harmonia, sem métrica, sem timbre, sem instrumentos, sem nada. Nesse instante tornou-se claro para mim que caminho teria que seguir, e uma longa viagem iniciou-se no meu inconsciente. […] Só mais tarde compreendi que é possível exprimir mais apenas com uma simples linha melódica do que com muitas. Nessa altura, dadas as condições em que me encontrava, era incapaz de escrever uma única linha melódica sem o recurso a números; mas os números do serialismo também já não tinham sentido para mim. Não era o caso com o Canto Gregoriano. As suas linhas tinham alma.
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