clarice lispector
... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi o apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.
pier paolo pasolini
É quase meia noite, o Taj Mahal tem o ar de um mercado que fecha. O grande hotel, um dos mais conhecidos do mundo, escavado de um extremo a outro por corredores e salões de pé-direito muito alto (dir-se-ia que se anda à roda no interior de um enorme instrumento musical), está cheio tão-só de boys vestidos de branco, e de porteiros com turbantes de gala, que esperam a passagem de táxis equívocos. Ainda não é altura, oh, não é altura de me ir deitar, nesses quartos grandes como camaratas, cheios de móveis de um desolado século XX retardatário, com ventiladores que parecem helicópteros.
São as primeiras horas da minha presença na Índia, e eu não sei dominar a fera sequiosa fechada dentro de mim, como numa jaula. Convenço o Moravia a dar pelo menos dois passos fora do hotel, e a respirar um pouco do ar da primeira noite indiana.
Assim saímos, para a estreita marginal que corre por de trás do hotel, pela saída das traseiras. O mar está sossegado, não dá sinais da sua presença. Ao longo do parapeito que o contém, há automóveis parados e, perto deles, esses seres fabulosos, sem raízes, sem sentido, carregados de significações duvidosas e inquietantes, dotados de um fascínio poderoso, que são os primeiros indianos de uma experiência que quer ser exclusiva como a minha.
São todos mendigos, ou dessas pessoas que vivem nas imediações de um grande hotel, entendidos na sua vida mecânica e secreta: têm uma faixa branca a envolver-lhes os flancos, uma outra faixa por cima dos ombros, e alguns deles, outra ainda enrolada à volta da cabeça: são quase todos os negros de pele, como que negros, alguns deles negríssimos.
Pier Paolo Pasolini
Um cheiro da Índia
Pasolini em 1961, faz uma viagem à Índia na companhia de Alberio Moravia e Elsa Morante.
O Moravia tem outro livro, Uma ideia da Índia, da Editora Tinta da China.
São as primeiras horas da minha presença na Índia, e eu não sei dominar a fera sequiosa fechada dentro de mim, como numa jaula. Convenço o Moravia a dar pelo menos dois passos fora do hotel, e a respirar um pouco do ar da primeira noite indiana.
Assim saímos, para a estreita marginal que corre por de trás do hotel, pela saída das traseiras. O mar está sossegado, não dá sinais da sua presença. Ao longo do parapeito que o contém, há automóveis parados e, perto deles, esses seres fabulosos, sem raízes, sem sentido, carregados de significações duvidosas e inquietantes, dotados de um fascínio poderoso, que são os primeiros indianos de uma experiência que quer ser exclusiva como a minha.
São todos mendigos, ou dessas pessoas que vivem nas imediações de um grande hotel, entendidos na sua vida mecânica e secreta: têm uma faixa branca a envolver-lhes os flancos, uma outra faixa por cima dos ombros, e alguns deles, outra ainda enrolada à volta da cabeça: são quase todos os negros de pele, como que negros, alguns deles negríssimos.
Pier Paolo Pasolini
Um cheiro da Índia
Pasolini em 1961, faz uma viagem à Índia na companhia de Alberio Moravia e Elsa Morante.
O Moravia tem outro livro, Uma ideia da Índia, da Editora Tinta da China.
pink floyd
for my daughter carolina
Hey you out there in the cold
Getting lonely getting old
Can you feel me?
Hey you standing in the aisles
With itchy feet and fading smiles
Can you feel me?
Hey you don't help them to bury the light
Don't give in without a fight.
Hey you out there on your own
Sitting naked by the phone
Would you touch me?
Hey you with you ear against the wall
Waiting for someone to call out
Would you touch me?
Hey you, would you help me to carry the stone?
Open your heart, I'm coming home.
But it was only fantasy.
The wall was too high,
As you can see.
No matter how he tried,
He could not break free.
And the worms ate into his brain.
Hey you, out there on the road
Always doing what you're told,
Can you help me?
Hey you, out there beyond the wall,
Breaking bottles in the hall,
Can you help me?
Hey you, don't tell me there's no hope at all
Together we stand, divided we fall.
Hey you out there in the cold
Getting lonely getting old
Can you feel me?
Hey you standing in the aisles
With itchy feet and fading smiles
Can you feel me?
Hey you don't help them to bury the light
Don't give in without a fight.
Hey you out there on your own
Sitting naked by the phone
Would you touch me?
Hey you with you ear against the wall
Waiting for someone to call out
Would you touch me?
Hey you, would you help me to carry the stone?
Open your heart, I'm coming home.
But it was only fantasy.
The wall was too high,
As you can see.
No matter how he tried,
He could not break free.
And the worms ate into his brain.
Hey you, out there on the road
Always doing what you're told,
Can you help me?
Hey you, out there beyond the wall,
Breaking bottles in the hall,
Can you help me?
Hey you, don't tell me there's no hope at all
Together we stand, divided we fall.
rui chafes
Não é a escultura, o desenho, a pintura, a fotografia...é a alma. A arte é o duro trabalho da nossa alma. A história da alma de um artista é dura, difícil, por vezes desagradável e custosa. Mas do lado de lá, do outro lado, onde se encontram todos os nossos demónios e onde já estamos para além de tudo, encontramos a única geometria possível, a mais cristalina, parecida com a que rege os astros que rodeiam a bela lua. Aí construímos flores de aço e observamos, maravilhados, a transparência da chuva velando as suas pétalas metálicas. É este o único realismo que me interessa.
(Entre o céu e a terra)
(Entre o céu e a terra)
pablo neruda
Te amo,
te amo de una manera inexplicable,
de una forma inconfesable,
de un modo contradictorio.
Te amo
con mis estados de ánimo que son muchos,
y cambian de humor continuamente.
por lo que ya sabes,
el tiempo, la vida, la muerte.
Te amo...
con el mundo que no entiendo,
con la gente que no comprrende,
con la ambivalencia de mi alma,
con la incoherencia de mis actos,
con la fatalidad del destino,
con la conspiración del deseo,
com la ambiguedad de los hechos.
Aún cuando te digo que no te amo, te amo,
hasta cuando te engaño,
en el fondo, llevo a cabo un plan,
para amarte mejor.
Te amo...
sin reflexionar, inconscientemente,
irresponsablemente, espontáneamente,
involutariamente, por instinto,
por impulso, irracionalmente.
En efecto no tengo argumentos lógicos,
ni siquiera improvisados
para fundamentar este amor que siento por ti,
que surgió misteriosamente de la nada,
que no ha resuelto mágicamente nada,
y que milagrosamente, de a poco, con poco y nada
ha mejorado lo peor de mí.
Te amo,
te amo con un cuerpo que no piensa,
con un corazón que no razona,
con una cabeza que no coordina.
Te amo
incomprensiblemente,
sin preguntarme por qué te amo,
sin importarme por qué te amo,
sin cuestionarme por qué te amo.
Te amo
sencillamente porque te amo,
yo mismo no sé por qué te amo.
te amo de una manera inexplicable,
de una forma inconfesable,
de un modo contradictorio.
Te amo
con mis estados de ánimo que son muchos,
y cambian de humor continuamente.
por lo que ya sabes,
el tiempo, la vida, la muerte.
Te amo...
con el mundo que no entiendo,
con la gente que no comprrende,
con la ambivalencia de mi alma,
con la incoherencia de mis actos,
con la fatalidad del destino,
con la conspiración del deseo,
com la ambiguedad de los hechos.
Aún cuando te digo que no te amo, te amo,
hasta cuando te engaño,
en el fondo, llevo a cabo un plan,
para amarte mejor.
Te amo...
sin reflexionar, inconscientemente,
irresponsablemente, espontáneamente,
involutariamente, por instinto,
por impulso, irracionalmente.
En efecto no tengo argumentos lógicos,
ni siquiera improvisados
para fundamentar este amor que siento por ti,
que surgió misteriosamente de la nada,
que no ha resuelto mágicamente nada,
y que milagrosamente, de a poco, con poco y nada
ha mejorado lo peor de mí.
Te amo,
te amo con un cuerpo que no piensa,
con un corazón que no razona,
con una cabeza que no coordina.
Te amo
incomprensiblemente,
sin preguntarme por qué te amo,
sin importarme por qué te amo,
sin cuestionarme por qué te amo.
Te amo
sencillamente porque te amo,
yo mismo no sé por qué te amo.
manuel antónio pina
Está tudo bem mãe,
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,
tenho muito sangue.
Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.
Lembranças a menos
faziam-me bem,
e esquecimento também
e sangue e água a menos.
Teria cicatrizado
a ferida do lado,
e eu ressuscitado
pelo lado de dentro.
Que é o lado
por onde estou pregado,
sem mandamento
e sem sofrimento.
Nas tuas mãos
entrego o meu espírito,
seja feita a tua vontade,
e por aí adiante.
Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,
tenho muito sangue.
Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço), deixaste-me
pouco espaço para tanta existência.
Lembranças a menos
faziam-me bem,
e esquecimento também
e sangue e água a menos.
Teria cicatrizado
a ferida do lado,
e eu ressuscitado
pelo lado de dentro.
Que é o lado
por onde estou pregado,
sem mandamento
e sem sofrimento.
Nas tuas mãos
entrego o meu espírito,
seja feita a tua vontade,
e por aí adiante.
Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão.
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