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pedro mexia

Pessoas que fizeram parte da nossa vida durante décadas desaparecem e na verdade não lhes sentimos a falta, reparamos nisso quando reparamos que nunca reparámos nisso, é um pouco indecente confessá-lo mas é assim, não deixaram marca, mesmo que tivessem sido amáveis ou amigas, as coisas são o que são. E outras pessoas, raras, duas por década se tanto, pessoas que mal conhecíamos, com quem nos cruzámos ou com quem convivemos por uns dias apenas, essas fazem-nos uma falta tremenda, uma falta como a de uma substância química a que o organismo se habituou, às vezes nem é tanto o que elas são ou foram, que mal soubemos ou adivinhámos, mas pequenos gestos, suspensões na voz, interjeições favoritas, tiques de linguagem que se tinham tornado um jogo privado, medos confessados a conta-gotas, mensagens cifradas como cartas para descodificarmos muito depois, ambiguidades desastradas ou cuidadosas, gargalhadas inconvenientes e fantásticas, omissões por bem, certa forma de nos chamarem quando nos afastamos, um jeito de se afastarem quando chegamos demasiado perto, clichés encantadores, frases de efeito, palavras balbuciadas, bocados contrabandeados de biografia para não parecer que são biografia, entusiasmos de outros tempos, zangas que passam logo, branduras quase irreais, espanto e pânico à primeira vista indetectáveis, e uma impossibilidade última de existirem na nossa vida senão fazendo-nos falta, mulheres que mal tocámos e que afinal faziam parte do nosso corpo, e que agora talvez pensem de quando em vez nesse nosso corpo amputado e triste e grato por nos termos conhecido, e talvez pensem o mesmo de nós, ou talvez se tenham esquecido, ou talvez se esqueçam em breve.

david lynch and lykke li

on the road

I’m waiting here
I’m waiting here
I’m waiting here
I’m waiting here
Can’t we draw never fulfill these here
I move nowhere only to find you here
Your deepest hell, never the same as them
Keep me low where the horizon melts
I’m waiting here
I’m waiting here
I’m waiting here
I’m waiting here
We made love
Under a dark moon
I’ve burned a lot of bridges
Some castles were made of sand
Only then
Can I alone look at the sky my dear
I am right, every falling star
Make a wish, it will turn away
So we can love on til infinity
Here
I’m waiting here
I’m waiting here
I’m waiting here
I’m waiting here
I’m waiting here

james turrell

encontro com a luz

elisabeth taylor

 27.02.32 / 23.03.11

herberto helder

I

basta que te dispas até te doeres todo,
retoma-te no tocado, no aceso,
e fica cego e,
por memória do tacto, desfaz os nós,
muitos, muito
atados uns nos outros,
e que inteiramente te alcance o ar e,
depois de te haver abraçado de alto a baixo, apareça já
inextricável, ar
falado, a fino ouvido: cacofónico,
mas de um modo exacto, acho,
música inquieta, inconjunta, impura,
isso: essa música

II
Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores ou bichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.


Mexo a boca, mexo os dedos, mexo a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão e harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.

la grande bellezza

“A coisa mais importante que descobri uns dias depois de fazer 65 anos é que não posso perder mais tempo a fazer coisas que não quero fazer.”
Jep, que diz ser escritor que nada escreve e nada lê, refere Flaubert que sonhara escrever um livro sobre o nada e não conseguiu. A beleza que Jep sempre procurou e não encontrou para voltar a escrever. Um filme romano e felliniano.

paco de lucia

e por falar em mortos...