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elis regina e tom jobim

Acho que já fiz um post com esta música aqui, mas a propósito da chuva...

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, o nó da madeira
Caingá candeia, é o Matita-Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto um desgosto, é um pouco sozinho
É um estepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manha, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto do toco, é um pouco sozinho
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
Pau, pedra, fim do caminho
Resto de toco, pouco sozinho
Pau, pedra, fim do caminho
Resto de toco, pouco sozinho
Pedra, caminho
Pouco sozinho
Pedra, caminho
Pouco sozinho
Pedra, caminho
É o toco...

david sylvian


Standing firm on this stony ground
The wind blows hard
Pulls these clothes around
I harbour all the same worries as most
The temptations to leave or to give up the ghost
I wrestle with an outlook on life
That shifts between darkness and shadowy light
I struggle with words for fear that they'll hear
But orpheus sleeps on his back still dead to the world
Sunlight falls, my wings open wide
There's a beauty here I cannot deny
And bottles that tumble and crash on the stairs
Are just so many people I knew never cared
Down below on the wreck of the ship
Are a stronghold of pleasures I couldn't regret
But the baggage is swallowed up by the tide
As orpheus keeps to his promise and stays by my side
Tell me, I've still a lot to learn
Understand, these fires never stop
Believe me, when this joke is tired of laughing
I will hear the promise of my orpheus sing
Sleepers sleep as we row the boat
Just you the weather and I gave up hope
But all of the hurdles that fell in our laps
Were fuel for the fire and straw for our backs
Still the voices have stories to tell
Of the power struggles in heaven and hell
But we feel secure against such mighty dreams
As orpheus sings of the promise tomorrow may bring
Tell me, I've still a lot to learn
Understand, these fires never stop
Please believe, when this joke is tired of laughing
I will hear the promise of my orpheus sing

lisbon by the river




Pasolini

... Meu pai, quando nasci, era tenente de infantaria: pertencia a uma antiga família de Ravena, e tinha esbanjado todo o património - passional, sensual e violento de carácter: e fora parar à Líbia, sem um tostão; assim começara a carreira militar, pela qual viria a ser depois deformado e reprimido até ao conformismo mais definitivo. Isto nunca o pôde contentar, antes pelo contrário angustiou-o sempre, até uma forma quase paranóica nos últimos anos, no regresso da sua terceira guerra. Contava comigo, com a minha carreira literária, desde pequeno, pois escrevi as primeiras poesias aos 7 anos: intuíra, pobre homem, mas não previra, as satisfações, as humilhações. Acreditava poder conciliar a vida de um filho escritor com o seu conformismo. A inconciabilidade fê-lo enlouquecer: ao compreender deixou de compreender... Para nada lhe servia a sua agudíssima inteligência: era um instrumento que nunca encontrava verdadeiro uso. Exaltava-se, barafustava, esbracejava: estava no mundo para sofrer, e quanto nos fez sofrer, a mim e a minha mãe! Quando em 1942 saiu o meu primeiro livro, Poesie a Casarsa (em dialecto friulano! Coisa absurda para ele que, oficialzeco de primeira apanha, era capitão em Casarsa, e ali conhecera minha mãe, apoderando-se imediatamente dela, com a sua prepotência infantil e centralizadora): recebeu-o no Quénia, onde estava prisioneiro. Mas apesar do absurdo da língua usada, era dedicado a ele, e isto consolava-o, mimava-o.
Quando voltou, eu estava em Casarsa, com minha mãe: estava perdido como uma interminável intimidade que fazia do Friuli a sua sede objectiva. Meu irmão Guido morrera na resistência. Minha mãe e eu estávamos meio destruídos pela dor. Caiu ele assim em Casarsa numa espécie de nova prisão: e começou a sua agonia longa de doze anos. Viu sair, um a um, os meus primeiros livros, em friuliano, seguiu os meus primeiros sucessos críticos, viu-me licenciado em letras: e no entanto compreendia-me sempre cada vez menos. O contraste era feroz: se alguém adoecesse de cancro e depois se curasse, teria provavelmente da sua doença a mesma recordação que eu tenho desses anos. Nos primeiros meses de 1950 estava eu em Roma com minha mãe: meu pai viria também, quase dois anos depois, e da Praça Costaguti passámos-nos para a Ponte Mammolo: já nos anos cinquenta começara a escrever as primeiras páginas  de Ragazzi di Vita. Estava desempregado, reduzido a condições desesperadas: poderia ter mesmo morrido. Depois, com a ajuda do poeta dialectal abruzês Vittorio Clemente encontrei uma colocação de professor numa escola privada de Ciampino, com 25 mil liras por mês. Dois anos de duro trabalho, de pura luta: e o meu pai sempre ali, à espera, só na pobre cozinha, com os cotovelos sobre a mesa e a cara apoiada entre as mãos, imóvel, mau, dolente; enchia o espaço do pequeno vão com a grandeza que têm os corpos mortos. Depois Bassani fez-me entrar na primeira encenação cinematográfica: e terminara os Ragazzi de vita que Bertolucci indicou a Garzanti. Meu pai pôde então tratar de uma mudança de casa que lhe dava satisfação, que acordava nele o prazer do mandar, da vaidade e do decoro burguês. Fomos viver para Monteverde, na Via Fonteiana: deixei a escola, continuei a trabalhar, a escrever versos, a avançar com Una vita violenta, a encenar, quando calhava: com a colaboração em Le notti de cabiria pude comprar também um fiat 600: que depois se tornou num mil e cem. Tive alguns prémios, o prémio "Città di Parma" por Ragazzi di vita, o prémio "Viareggio" por Le ceneri di Gramsci (antes tivera uma dezena de prémios menores, por versos dialectais, crítica, etc). Mas a vida em minha casa era sempre a mesma, sempre igual à morte. Meu pai sofria e fazia-nos sofrer; odiava o mundo, que ele reduzira a dois ou três dados obsessivos e inconciliáveis: era destes que bate continuamente e desesperadamente com a cabeça contra um muro. A sua verdadeira agonia durou muitos meses: respirava com custo, com contínuo lamento. Estava doente do fígado e sabia que era grave, que apenas um dedo de vinho lhe fazia mal, e bebia, pelo menos, dois litros dele por dia. Não se queria curar, em nome da sua vida retórica. Não nos ouvia, nem a mim nem a minha mãe, porque nos desprezava. Uma noite voltei para casa apenas a tempo de o ver morrer.

Eu agora continuo a mesma vida: trabalho de manhã em casa:tenho que pôr em ordem um novo volume de versos, La ricchezza: estou tomando as notas para o terceiro romance, Il Rio della Grana, comecei a traduzir Eneida. E depois os trabalhos práticos, o cinema, a redacção de "Officcina", etc. Saio depois do almoço, ao acaso, quase sempre até às duas da noite: passeio-me desde as borgate* e as periferias mais famosas até algumas  reuniões, não frequentes, com os amigos, Bertolucci, Bassani, Gadda, Moravia, Morante, Citati... Ou então também, algumas vezes, pelos salões de Bellonci, de De Giorgi, de Mastrocinque, de Astaldi... Mas a maior parte da minha vida passo-a para lá dos limites da cidade, para lá do fim da linha do eléctrico, como diria, hermetizando, um mau poeta neo-realista. Amo a vida ferozmente, tão desesperadamente, que não me pode advir daí algum bem: refiro-me aos dados físicos da vida, ao sol, à erva, à juventude; é um vício mais tremendo que o da cocaína, pois não me custa nada e existe com uma abundância desmedida, sem limites: e eu devoro, devoro... Como irá acabar, não faço ideia...

(* Bairros de barracas da periferia das grandes cidades italianas)

Últimos Escritos

tarkovsky e bach

ernesto sabato

O homem, a alma do homem, está suspensa entre o anseio do Bem, essa eterna nostalgia que temos do amor, e a inclinação para o Mal, que nos seduz e possui, muitas vezes sem que tenhamos sequer compreendido o sofrimentos que os nossos actos podem ter provocados nos outros.
A bondade e a maldade não são possíveis de abarcar, porque acontecem no nosso próprio coração. São, indubitavelmente, o grande mistério. Esta trágica dualidade reflecte-se na cara do homem, onde lenta mas inexoravelmente, deixam a sua marca os sentimentos e as paixões, os afectos e os rancores, a fé, a ilusão e os desencantos, as mortes que vivemos ou pressentimos, os Outonos que nos entristeceram ou desanimaram, os amores que nos enfeitiçaram, os fantasmas que, nos seus sonhos ou nas suas ficções, nos visitam ou acossam. Nos olhos que choram de dor, ou se fecham de sono mas também por pudor ou por astúcia, nos lábios que se apertam por obstinação mas também por crueldade, nas sobrancelhas que se contraem por inquietação ou estranheza, ou que se levantam na interrogação e na dúvida, enfim, nas veias que incham de raiva ou de sensualidade, se vai delineando a instável geografia que a alma acaba por construir sobre a subtil e maleável pele do rosto. Revelando-se assim, segundo a fatalidade que lhe é própria, através dessa matéria que é simultaneamente a sua prisão e a sua grande possibilidade de existência.
(Resistir)

hölderlin

Olha! As palavras inocentes
rejuvenesceram-me afinal
e como noutro tempo as lágrimas brotam dos meus olhos.
E recordo os dias há muito passados
e a terra natal a alegrar de novo
a minha alma solitária,
e a casa onde cresci um dia com as tuas bênçãos,
onde, alimentando com amor, bem depressa o menino cresceu.
Ah, quantas vezes pensei que te reconfortaria
Quando a mim mesmo me via laborar ao longe no vasto mundo.
Muito intentei e sonhei e fiz-me chagas no peito
à força de lutar, mas fareis com que as cure meus queridos! E aprenderei a viver como
tu, Mãe, muito tempo;
é piedosa e tranquila a velhice.
Virei a ti: abençoa agora o teu neto, uma vez mais,
Que, assim, o homem mantenha o que em criança prometeu.

lambchop

feeling blue

You lay around the house
Nothing much to bark about
Jump onto the bed
Just bones and squirrels inside your head
This is the only life i see
For you
And if i gave a crap
Would that show you where my head is at
I would ride the moon
And even if it comes too soon
I could fall for you
And you could fall for me
So we go all to the shows
And happiness is all we know
How it got to you
And how it got to me too
I wish i never knew
(about) my blue wave
And william called and tried
To tell me that his sister's boyfriend has
Just died
He's not sure what to do
And i'm not sure what to tell him he should do
Sometimes william we're just screwed
(in) my blue wave
So what's the girl to do
Sits on the couch and she's feeling blue
Shakes it in the cup
And she doesn't mind if it stays up
Up up oh
Never mind the world
My blue girl
And the best is yet to come
You may think you are the only one
To never get it right
Just stick around on this lovely night
And we may be amazed
By my blue wave
To conclude this interview
Many facts and fictions you construe
The dog gives you the paw
You pat his head and you wipe his jaw
He's the only one who knew
(about) my blue wave