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rui nunes

Não és já o corpo, e quando te penso não cresces, e sempre disse que seria incapaz de desejar quem não imagino. Muitas vezes te falo de estarmos próximos, outras, do hábito, e até deste modo de te não amar a que me habituei.

Para quê fingir? odeio a casa, os chinelos, o conforto de te ver engordar de ano para ano, a cárie, o cheiro que te vem na boca, a máscara de base ou de argila ou de creme johnson que todas as noites pões para todas as manhãs ressuscitares. É em nome de uma lucidez que me permita apodrecer sem subterfúgios que te mando à merda, embora continue a dizer aos rapazes qual o contradomínio da função exponencial, a devorar durante as vinte e duas horas semanais o tempo e a área onde poderia sobreviver.

satyajit ray

vasco graça moura

soneto do amor e da morte
quando eu morrer murmura esta canção 
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.