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stefan zweig

Quero falar a sós contigo, dizer-te tudo pela primeira vez; hás-de ficar a saber toda a minha vida que sempre foi tua e acerca da qual jamais soubeste. Contudo apenas hás-de ficar a saber do meu segredo quando estiver morta, quando já não tiveres de responder-me, quando chegar verdadeiramente ao fim aquilo que agora me estremece pés e mãos, ora me afrontando ora me enregelando. Caso fique viva, então rasgarei esta carta e guardarei silêncio como sempre fiz. Caso a tenhas em teu poder, ficas então a saber ser uma morta quem te conta aqui a sua vida, que foi a tua desde a sua primeira até à sua última hora (...)

Carta de uma desconhecida

pasolini


as últimas 24 horas da vida de Pasolini por Abel Ferrara

Moravia e Pasolini

Na realidade, Pasolini era inimigo da violência não só por temperamento, pois era um homem meigo, doce e gentil e eminentemente dotado daquela piedade cujo desaparecimento lamentava, mas também e sobretudo porque a descoberta da nova violência massificada estava ao centro das suas mais profundas preocupações culturais e políticas.

Rimbaud, numa famosa poesia, diz ter adivinhado a madrugada em cem indícios sem porém a ver inteiramente "com o seu corpo imenso", até ao fim. Para a violência, com Pasolini, aconteceu como a Rimbaud, para a madrugada. Entreviu-lhe "o corpo imenso", apenas no último momento, quando já era demasiado tarde. Rimbaud diz que imediatamente depois de ter descoberto a madrugada caiu num sono profundo: "Quando acordou, era meio-dia". Pasolini viu a violência de massa na cara uma só vez, inteira e terrível. Tudo para ele foi portanto obscuridade, sem mais um acordar.

(Texto de Alberto Moravia, no Livro "Últimos Escritos, de Pasolini)

Auto portrait


ben howard

para a carolina

Oh, hey, I wasn't listening
I was watching serial
Blinded by the sunshine screen
You, you were in the kitchen, oh, your
Mind was marked
And wounded with the wounders whip
And that's how summer passed oh your,
Great divide and range of green green grass
Oh, maybe it was peace at last, who knew
Hello love, my invincible friend
Hello love, the thistle and the burr
Hello love, for you I have so many words that I
I forget where we were
Oh, hey, I was listening,
I was stung by all of us
And blind even affable
And as per usual, you were
Skipping and laughing eyes at the bedroom door
Don't take it so seriously, no
Only time is ours
The rest we'll just wait and see
Maybe you're right babe, maybe
Oh, no, and that's how summer passed
Oh, your, great divide
And range of green green grass
Oh, maybe it was peace at last, who knew
Hello, love, my invincible friend
Hello, love, the thistle and the burr
Hello, love, for you I have so many words that I
I forget where we were
I, I forget where we were
I, I forget where we were
I forget where we were, no
I forget where we were, no
Oh, no, and that's how summer passed
Oh, your, great divide
And range of green green grass
Oh, maybe it was peace at last, who knew

Dostoiévski

Era uma noite divina, uma noite que só pode haver, querido leitor, quando somos jovens! O céu estava tão estrelado, tão límpido que, olhando para ele, nos podia escapar a pergunta: será possível viver sob este céu gente zangada e injusta?

(Noites Brancas)

leonard cohen

Ontem fui ver a exposição "Bohemia- Vida e Morte no Chelsea Hotel" de Rita Barros e lembrei-me desta canção

I remember you well in the Chelsea Hotel,
you were talking so brave and so sweet,
giving me head on the unmade bed,
while the limousines wait in the street.
Those were the reasons and that was New York,
we were running for the money and the flesh.
And that was called love for the workers in song
probably still is for those of them left.
Ah but you got away, didn't you babe,
you just turned your back on the crowd,
you got away, I never once heard you say,
I need you, I don't need you,
I need you, I don't need you
and all of that jiving around.
I remember you well in the Chelsea Hotel
you were famous, your heart was a legend

al berto

a guerra daqui não mata - mas abre fissuras
nos nervos - é o que te posso dizer 
deste país que escolhi para definhar

a cidade é um amontoado de lixo de tapumes
de sucata e de casas que se desmoronam
a realidade estragou os olhos das crianças 

no fim do corpo em que me escondo espalhou-se
a treva onde 
guardo a corola azulínia de tua ausência 

e o marulho nítido de um mar que canta 
é um calor sísmico nos lábios que beijaste

é-me difícil continuar a escrever-te
o que me destrói - sei que estou fodido
e tu já não és meu

preparo-me para entreabrir os olhos e 
deixar escorrer a convulsão oleosa das lágrimas 
e das coisas tristes