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robert bresson

Li Shang-Yin

O vento de leste sopra, trazendo uma chuva morna:
Além do tanque dos nenúfares, o barulho ténue do trovão.
Um sapo de ouro abocanha a fechadura. Abre-a, queima incenso.
Retira água do poço, puxa a corda que tem um tigre de jade.
A filha de Jia espreitou pelo biombo: um jovem encantador.
A Deusa do Rio deixou almofada ao Príncipe de Wei.
Que nunca o teu coração acorde com as flores da Primavera:
Um punhado de amor é um punhado de cinzas.

shubert

em honra ao Robert Bresson e à Cinemateca

Eugénio de Andrade

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus

susan sontag

"O homem cria as suas próprias doenças", escreveu Groddeck; "é ele a causa das suas doenças, escusado será procurar outro responsável." Ao enumerar as "meras causas externas", Groddeck encabeça a lista com os "bacilos" - seguindo-se os "resfriados, excessos de comida, excessos de bebida, trabalho, e outros". E insiste que o motivo é "porque não é agradável olhar para dentro de nós próprios" e porque os médicos preferem "atacar as causas externas pela profilaxia, a desinfecção e assim por diante", em vez de enfrentar as causas verdadeiras, que são internas. Numa formulação mais recente de Karl Menninger: "a doença é em parte aquilo que o mundo fez à vitima, mas numa parte mais significativa aquilo que a vítima fez do mundo e de si própria..."Opiniões tão absurdas e perigosas acabam por fazer pesar sobre o paciente a responsabilidade da doença e não só enfraquecer a capacidade do paciente para compreender o alcance de um tratamento médico razoável, como também, implicitamente, desviá-lo de tal tratamento. A cura dependeria sobretudo das capacidades de auto-estima do paciente, já duramente postas à prova ou enfraquecidas.

(A doença como metáfora)

neville brothers


I think we're all runnin' thinkin' that we can hide
I think we're runnin' try in' to get away
But sooner or later we gonna realize
We gonna meet up with the truth face to face
You can't stop running water
You can't kill the fire that burns inside
Don't deny our flesh and blood
Don't forsake our sons and daughters
It's freedom of speech - as long as you don't say too much
But sooner or later we gonna realize
We gonna meet up with the truth face to face

Anna Akhmátova

Hoje, tenho muito que fazer;
devo matar a memória até ao fim.
Minha alma vai ter de virar pedra.
Terei de reaprender a viver.

billie holiday


I'm a fool to want you
I'm a fool to want you
To want a love that can't be true
A love that's there for others too
I'm a fool to hold you
Such a fool to hold you
To seek a kiss not mine alone
To share a kiss the Devil has known
Time and time again I said I'd leave you
Time and time again I went away
But then would come the time when I would need you
And once again these words I'll have to say
I'm a fool to want you
Pity me, I need you
I know it's wrong, it must be wrong
But right or wrong I can't get along
Without you
I can't get along
Without you