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adília lopes

fizeste-me mil maldades e uma maldade muito grande que não se faz
acho que devo ter sido a pessoa a quem fizeste mais maldades
nem deves ter feito a ninguém uma maldade tão grande
como a que me fizeste a mim
não sei se tens remorsos
tu dizes que não tens remorsos nenhuns
porque dizes que és um vil criminoso para mim
eu também sou uma vil criminosa mas não para ti
desconfio que tens o remorso de ter alguns remorsos
por me teres feito mil maldades
e uma maldade tão grande
a maldade muito grande já está feita e não se faz
acho que essa maldade muito grande nos aproximou um do outro
em vez de nos afastar
mas para mim é um drôle de chemin
e para ti também deve ser
mas com um vil criminoso nunca se sabe

gilberto gil

para aqueles que não conseguem dormir

não tenho medo da morte
mas sim medo de morrer
qual seria a diferença
você há de perguntar
é que a morte já é depois
que eu deixar de respirar
morrer ainda é aqui
na vida, no sol, no ar
ainda pode haver dor
ou vontade de mijar
a morte já é depois
já não haverá ninguém
como eu aqui agora
pensando sobre o além
já não haverá o além
o além já será então
não terei pé nem cabeça
nem fígado, nem pulmão
como poderei ter medo
se não terei coração?
não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte e depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou
então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida

by the river



matthieu ricard / jean-françois revel

o monge e o filósofo

MR - Umas das características do Budismo como uma "ciência de mente" é a de que não é suficiente apenas reconhecer e identificar de forma consciente uma emoção ou uma tendência latente e trazê-la de volta à superfície. Precisamos de aprender a libertarmo-nos de tais pensamentos e emoções, impedindo-os de deixar qualquer rasto na nossa mente. Caso contrário, muito facilmente eles darão lugar a uma reacção em cadeia. Um pensamento de desconforto, por exemplo, rapidamente se pode transformar em animosidade e depois em ódio, até que rapidamente toma completamente o controlo da nossa mente, fazendo com que expressemos tais pensamentos em palavras e acções. Quando fazemos algo de negativo a alguém, a nossa paz interior também é destruída. O mesmo é válido para o desejo, a arrogância, a inveja, o medo e tantas outras emoções negativas. Podemos permitir que os nossos impulsos nos façam destruir, possuir ou dominar algo, mas qualquer satisfação que daí advenha será sempre efémera. Nunca nos trará o tipo de alegria que é profunda, estável e duradoura.

JFR - Mas certamente nem todo o sofrimento moral é causado pelo ódio ou pelo desejo?

MR - Não, o sofrimento pode vir de um conjunto vasto de emoções negativas. A chave para trabalharmos a nossa mente de forma eficaz consiste em não apenas identificar os nossos pensamentos e emoções mas também em dissolvê-los, deixá-los desaparecer no vasto espaço da nossa mente. Existem um número de técnicas que podem ser aplicadas com este fim.
A mais importante consiste em não nos concentrarmos no conteúdo das emoções ou nas causas e circunstâncias que as despoletam, mas sim em identificar a sua verdadeira origem. Existem duas formas de meditarmos, como um cão ou como um leão. Podemos tentar lidar com os nossos pensamentos da mesma forma que um cão corre atrás de cada pedra que lhe é atirada, uma após a outra. Isso é na realidade, aquilo que todos nós fazemos a maior parte das vezes.
Quando um pensamento surge, deixamos-nos levar por ele. Esse primeiro pensamento dá depois lugar a um segundo pensamento, depois a um terceiro e finalmente a uma cadeia de pensamentos infindáveis que apenas sustém a nossa confusão mental. Mas a outra forma de reagir, é semelhante à de um leão. Apenas se pode tirar uma pedra a um leão, porque ele se dirige imediatamente a quem lhe atirou a pedra e lhe salta para cima. Esta segunda analogia descreve o tipo de meditação em que nos viramos para a própria origem dos pensamentos e examinamos o mecanismo primário através do qual eles surgem na nossa mente.

patrick watson

para aqueles que não conseguem dormir

Is it such a bad thing
That I just want to lay down for an hour
Is it such a crime
That I don't want to think about you know
'cause everything was getting cold outside
I saw you standing there
Remembered what I was doing here
And I know that you know
So damn hard, hard to let you go
And I know that you know
So damn hard, hard to let you go go go go go go
Tell me what you're wishing for
How about a little honesty now
What would you say to the world
If you only had one day
'cause it was getting a little cold outside
I saw you standing there
Why don't you come inside for a while
'cause I know that you know
So damn hard, hard to let you go
And I know that you know
So damn hard, hard to let you go go go go go go
Oh is it such a bad thing
That I don't want to change anything
You want me to take the weigh
Off your shoulders for an hour
'cause it was getting a little cold outside
I saw you standing there
Why don't you come inside for a while
And I know that you know
So damn hard, hard to let you go
And I know that you know
So damn hard, hard to let you go
And I know that you know
So damn hard, hard to let you go go go go go go
Hard to let you go go go go go go
So hard to let you go
So hard to let you go
So hard to let it go
So hard to let you go

fernando pessoa

Entre o sono e o sonho
Entre mim e o que em mim
É quem eu me suponho,
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga - a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim