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manuel antónio Pina

Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido
e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou e um deles
escreva agora isto como se
acordasse de um sonho que
um outro sonhasse (talvez eu),
e talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,
e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz algures do lado de fora.

machado de assis

"Enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida."

yo la tengo

para aqueles que não conseguem dormir




vergílio ferreira

Porquê? Para quê? Por nada. Para nada.
Mas não perguntes. Passam-se dias que te chamo e não vens. Ou vens mas não és tu. É uma imagem fria de ti como a de tanta coisa que recordo. Ou passas rápida pela minha lembrança e não te deténs um pouco. Mas outros dias nem sequer te chamo, entretido com o banal quotidiano. Sobretudo se vou à aldeia ou à vila para esse quotidiano se cumprir. às vezes acontece que ao regressar tu vens ao meu encontro no corredor. Mas não me dizes nada. Ou sorris apenas à passagem e é tudo o que tens par me dizer. E eu creio que essa distância a que sempre te puseste para eu te amar, como deves estar lembrada.

windy day