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viajo com os livros II

A morte é demasiado incompreensível, excessivamente desumana, e só perde a sua violência quando nela reconhecemos o único caminho sem retorno que nos é concedido para escapar os nossos falsos caminhos.

Só podemos contar com a compaixão e o entendimento dos outros se os nossos fracassos puderem ser explicados, se as nossas derrotas tiverem sido lutadas com coragem até ao fim e se o nosso sofrimento for a consequência inevitável destas duas causas razoáveis.

A morte não é para nós natural, deixa-nos perplexos. Mas os asiáticos incluíram-na nas suas religiões como o nada, o verdadeiro ser, a verdadeira força. Aguardam a morte sem ansiedade - já a nossa vida não é concebível sem esta ansiedade, que é o seu verdadeiro elemento.

Tentei tudo ao meu alcance para viver na Pérsia. Falhei.

O perigo tem diferentes nomes. Por vezes, chama-se simplesmente saudades de casa, outras vezes, é apenas o vento seco das montanhas que acicata os nervos, outras vezes, o álcool, outras vezes venenos mais letais ainda. Em certos momentos, não tem nome, nesses momentos somos acometidos por um medo inominável.

Reflecti sobre os limites do acaso, que tem uma importância tão grande, ainda que tão enganadora, nestas terras onde aparentemente nos movemos com liberdade absoluta. De novo, escolhera o caminho de livre vontade. O desvio pelo Curdistão? Aonde queria eu chegar afinal?

E hoje, encontro-me neste vale, a que chamamos "the happy valley", e que é tão claramente o fim de todos os caminhos.

Annemarie Schwarzenbach
(morte na pérsia)

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