As estações são uma velha paixão minha. Seria capaz de lá passar dias inteiros sentado a um canto, a observar o que acontece. Que outro lugar reflecte melhor o espírito de um país, o estado de alma das pessoas e o seus problemas, de que uma estação?
Ao fim de cinco anos em Tóquio, sempre no meio dos sons, dos ruídos, da multidão, sentia-me como que envenenado e decidi que tinha de me tratar. Depois de dar baixa da casa e despachar móveis e livros para a Tailândia, rapei a cabeça e, como um peregrino, fui escalar o Monte Fujiama. Escrevi o meu último artigo sobre o inquietante Japão visto do cimo daquela montanha, cada vez menos sagrada; depois recolhi-me numa cabana no meio dos bosques, na província de Ibaragi. Durante um mês. Não tinha ninguém com quem falar, a não ser o cão, o Baoli, que levara comigo. Passava horas a ler, a ouvir o vento entre as árvores, a olhar para as borboletas, a gozar o silêncio. Após anos a pensar no destino dos vietnamitas, dos cambojanos, do comunismo, dos chineses, na ameaça do Japão, no futuro dos filhos, nos problemas da família, dos amigos e do mundo, finalmente tinha tempo para ter tempo. A natureza, a extraordinária natureza, ajudou-me a recuperar.
"O budismo adapta-se perfeitamente à nossa mentalidade ocidental, corresponde à nossa necessidade de racionalidade. Um dos princípios do budismo é: Não creias em nada que não possas provar, não creias em nada de que tu próprio não possas ter a experiência."
Tiziano Terzani
(disse-me um adivinho)
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