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Primo Levi - parte I

Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma felicidade perfeita é igualmente, não realizável. Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados limites são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito.

São poucos os homens que sabem enfrentar a morte com dignidade, e em muitos casos, não são aqueles que se espera. Poucos sabem calar-se e respeitar o silêncio dos outros.

Despedimo-nos, sem demora; cada um se despediu do outro como se despedisse da vida. Já não tínhamos medo.

Imagine-se agora um homem ao qual, juntamente com as pessoas amadas, tiram a casa, os hábitos, a roupa, enfim, tudo, literalmente tudo quanto possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à carência, esquecido da dignidade e bom senso, pois acontece facilmente, a quem tudo perdeu, perder-se a si próprio.

Parece-me nunca ter sofrido, em toda a minha vida, uma humilhação mais atroz do que esta.

E, pela primeira vez desde que estou no campo, a alvorada surpreende-me num sono profundo, e o acordar é um regresso do nada.

Aqui, momentaneamente afastados das blasfémias e das violências, podemos voltar a nós próprios e meditar, e é então que se torna claro que não teremos regresso. Viajámos até aqui nos vagões selados; vimos partir em direcção ao nada as nossas mulheres e as nossas crianças; reduzidos a escravos marchamos mil vezes para trás e para diante, numa fadiga muda, já apagados nas almas antes da morte anónima. Não temos regresso. Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auschwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem.

(Se isto é um homem)

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