A faculdade humana de cavar um nicho para si, de segregar uma carapaça, de levantar à sua volta uma ténue barreira de defesa, mesmo em circunstâncias aparentemente desesperadas, é espantosa e mereceria um estudo aprofundado.
Alberto é o meu melhor amigo. Alberto entrou no lager de cabeça erguida, e vive no lager incólume e incorrupto. Foi o primeiro a perceber que esta vida é uma guerra; não concedeu a si próprio qualquer indulgência, não perdeu tempo a recriminar e a compadecer-se de si mesmo e dos outros, mas desde o primeiro dia foi à luta. Luta pela sua vida, mas mesmo assim é amigo de todos. Sempre reconheci e ainda reconheço nele, a rara figura do homem forte e bondoso, contra o qual se quebram as armas da noite.
Por mais sentido que faça querer definir as causas pelas quais precisamente a minha vida, entre milhares de outras equivalentes, pôde aguentar a prova, creio que devo justamente a Lorenzo o facto de estar vivo hoje; não tanto pela sua ajuda material, quanto por me ter constantemente lembrado com a sua presença, com a sua maneira tão linear e fácil de ser bom, que ainda existia um mundo justo para além do nosso, algo e alguém ainda puro e incontaminado, não corrupto e não selvagem, alheio ao ódio e ao medo; algo que mal se pode definir, uma remota possibilidade de bem, pela qual, porém, valia a pena conservar-se. as personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade está sepultada, ou eles mesmos a sepultaram, debaixo da ofensa que sofreram ou que infligiram a outrém. Mas Lorenzo era um homem; a sua humanidade era pura e incontaminada, estava fora deste mundo de negação. Graças a Lorenzo, aconteceu-me não esquecer que também eu era um homem.
Nós sabemos o que isto significa, porque estávamos aqui no inverno passado, e os outros aprendê-lo-ão cedo. Significa que, ao longo destes meses, entre Outubro e Abril, em cada dez de nós, sete irão morrer. Quem não morrer, irá sofrer minuto após minuto, em cada dia, todos os dias: desde antes do amanhecer até à distribuição da sopa da noite, deverá ter constantemente os músculos tensos, dançar de um pé para o outro, bater com os braços debaixo das axilas para resistir ao frio.
Quando chove, queríamos poder chorar. Estamos em Novembro, já chove há dez dias, e o terreno é como o fundo de um pântano. Tudo o que é de madeira cheira a bolor.
Os meus dias eram alegres e tristes, mas de todos tinha saudade, todos eram intensos e positivos; o futuro estava à minha frente como uma grande riqueza. Da minha vida de então, hoje resta apenas quanto basta para sofrer a fome e o frio; já não sou bastante vivo para ser capaz de pôr termo à minha vida.
(Se isto é um homem)
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