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Pierre Auguste Renoir, Mon Père

Alguns amigos meus, a quem conto as minhas recordações, fazem-me notar que uma educação como aquela que eu recebi não podia preparar uma criança para a luta pela vida. Têm razão, mas o meu pai não tinha a intenção de fazer de nós lutadores. Os meus pais armaram-nos contra a adversidade e  ensinaram-nos a viver sem luxo e mesmo, se necessário, sem conforto. "O segredo está em ter poucas necessidades". Os meus irmãos e eu teríamos conseguido viver de sopa de couves numa barraca, e teríamos sido perfeitamente felizes. Era-nos proibido não gostar de "tudo aquilo que normalmente se come". Se algum de nós se recusava a tocar num prato de feijões, era garantido que ia ter feijões, e nada mais, a todas as refeições até se decidir a comê-los com gosto. Esta severidade não era apenas motivada pelo propósito de nos tornar a existência mais fácil, mas também porque Renoir entendia que uma característica da má educação era a esquisitice à mesa.

O homem que à noite ia dar-me um beijo à cama está bem vivo na minha memória. O que me impressiona quando recuo até à época do despertar da minha consciência é a certeza que me ficou da solidez inabalável de Renoir. Para mim, todos os seus gestos eram irrefutáveis. Todas as crianças acham que o seu pai é o centro do mundo. Eu não achava isso do meu. Ele próprio me tinha convencido de que cada pessoa que anda neste mundo tem a sua função, nem mais nem menos importante do que a função do vizinho, e isso não podia deixar de me influenciar.

2 comentários:

  1. tanta sabedoria junta! que bom a minha prima ars ter-me dado este livro de presente! posso continuar a lê-lo depois do blog! sou uma sortuda por ter uma prima assim! ;)

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  2. Apesar da tradução não ser a melhor, o livro é uma delícia.
    Falta-me postar umas frases do pai Renoir que sublinhei no livro.
    És muito querida! Eu também sou uma sortuda por fazeres parte da minha vida :-)

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