Qualquer homem poderá talvez sentir uma espécie de mágoa, ou pavor, ao constatar como o mundo e sua história se mostram entregues a um inelutável movimento, sempre expansivo, que só motivos cada vez mais grosseiros modificam as manifestações visíveis desse mundo. E o mundo visível é como é, nunca através da nossa acção chegaremos a transformá-lo noutro. Nostálgicos, porém, sonhamos um universo onde o homem em vez de agir tão furiosamente sobre a aparência visível, se aplique no destruí-la, não apenas negando a acção, mas despojando-se o bastante para pôr a nu o ponto secreto, dentro de si, a partir do qual seja possível aventura humana outra. Mais efectivamente moral, sem dúvida. E afinal talvez à inumana condição, esse compromisso inelutável, devamos a nostalgia de uma civilização que se empenharia à descoberta em terreno ignoto impossível de dimensionar . Ora a obra de Giacometti torna o nosso universo tão insuportável quanto este artista parece ter sabido afastar o que lhe perturba a visão, e descobre o que resta do homem expurgadas que sejam as aparências. É tão profunda a nostalgia que o fortaleceu no trabalho, que Giacometti também deve ter tido necessidade dessa inumana condição imposta. Seja como for, toda a sua obra evoca tal procura, e não só em torno do homem como de não importa o quê ou o mais simples dos objectos ou seres eleitos da aparência comum, devolve-nos imagens magnificas. Merecida recompensa, se bem que previsível.
Na origem da beleza está unicamente a ferida, singular, diferente para cada qual, escondida ou visível, que todos os homens guardam dentro de si, preservada, e onde se refugiam ao pretenderem trocar o mundo por uma solidão temporária mas profunda. Fora de miserabilismos. A arte de Giacometti parece querer revelar essa ferida secreta dos seres e das coisas, para que ela os ilumine.
(O Estúdio de Alberto Giacometti, Assírio e Alvim)
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