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pascal quinard

O nome de Némie Satler é falso. É assim que eu vou denominar uma mulher que existiu, que já não é, e que eu amei. É difícil de falar do seu pensamento, quando o seu pensamento é a sua vida. O que provém do passado para o qual se estende, desesperadamente, a mão não só se troca em horas novas mas é ganho pelas emoções que aí nascem. No entanto, o que nos move, resultante do que nos comoveu, sente-se ainda no próprio passado. Parece-nos, às vezes, que toda a nossa vida de outrora não é, de modo algum, nem uma nuvem de poeira nem um lodo que caíram no fundo de nós: ela consiste num músculo vivo e impaciente no fundo do nosso coração. Esta mulher que eu amei, há alguns anos, há mesmo algumas dezenas de anos, já não vive neste mundo - nem em nenhum outro - mas algo que é seu corpo circula ainda no meu. Este traço vivo(uma vez que eu estou vivo quando escrevo esta frase) tem domicílio no coro que responde ao apelo do meu nome. Mais ainda que a alma tem morada no corpo onde não fez senão reencontrar o lugar que o esperava, desde o instante em que a sua forma anuiu à influência. O que eu procuro pensar não discerne em nada do que eu vivi e, sobretudo, do que vivo e do que quero continuar a viver.

Vida Secreta

2 comentários:

  1. Quinard é sempre uma maravilha... as suas palavras não são para ler, são para sentir... elas ocupam-nos... habitam as cavernas mais escuras do nosso interior...

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    1. Comprei há dias e folheei umas páginas!
      Não resisti a partilhar aqui :-))

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