O dia em que não passei na tua rua
qualquer que seja a origem do medo
sabemos sempre que acaba mal
o medo vai ter tudo
dizia o poema quase político e original
o medo cola-se à língua e faz-nos ágrafos de nós
deixamos de ouvir passos e os dias trocam as horas de instantes despidas
o medo de uma coisa cura o medo de outra anterior
e nenhuma delas nos deixa
um dia não passei na tua rua
esqueci-me
mas esquecer não é a palavra
quando dei conta estava já
mais perto da minha casa do que da tua
e não valia
o esforço de me esforçar
nada mudaria esse gesto
nem outro gesto nem um não-gesto
- advérbios de negação repousem comigo em paz
uma mão lava a outra que suja a minha que espreme o sexo
que limpa a alma
que esmaga os dias que encurva o tempo que acelera e se estilhaça
contra a palma da mão
Cinza
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