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flannery O' connor

Tenho de escrever que irei tornar-me artista. Não no sentido da fancaria estética, mas no sentido do engenho estético; caso contrário, sentirei a minha solidão constantemente - como hoje. A palavra engenho cobre o ângulo do trabalho e a palavra estética cobre o ângulo da verdade. Ângulo. Vai ser uma vida inteira de luta sem atingir a consumação. Quando qualquer coisa está concluída, não a podemos possuir. Nada podemos possuir, exceto a luta. Consumimos todas as nossas vidas em possuir a luta, mas somente quando acarinhamos essa luta e a orientamos para uma consumação final exterior a esta vida é que ela tem algum valor. Quero ser a melhor artista que me seja possível, sob a batuta de Deus.
Não quero sentir-me solitária toda a vida, mas as pessoas, ao recordarem-nos de Deus, apenas acentuam a nossa solidão. Meu bom Deus, por favor, ajuda-me a tornar-me uma artista, por favor, faz que isso me aproxime de Ti.

Um diário de preces

clarice lispector

Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim. Eu queria uma liberdade olímpica. Mas essa liberdade só é concedida aos seres imateriais. Enquanto eu tiver corpo ele me submeterá às suas exigências. Vejo a liberdade como uma forma de beleza e essa beleza me falta.

paula tavares

Esta manhã doí-me mais do que é costume
A pele
As escarificações
As cicatrizes
Doeu-me a noite de laços e espuma
Dói-me agora a pele
As escarificações as cicatrizes
Dói-me o teu corpo deitado
O silêncio
Os gritos de feixe
Dentro de mim

Le clézio

Assim como a morte é o remate da vida, aquilo que lhe dá forma e valor, aquilo que encerra o círculo, também o silêncio é o fim supremo da linguagem e da consciência. 
Tudo aquilo que se diz ou se escreve, tudo o que se sabe, destina-se a isso, a isso verdadeiramente: ao silêncio 

julian barnes

"It strikes me that this may be one of the differences between youth and age: when we are young, we invent different futures for ourselves; when we are old, we invent different pasts for others.” 
When you're young - when I was young - you want your emotions to be like the ones you read about in books. You want them to overturn your life, create and define a new reality. Later, I think, you want them to do something milder, something more practical: you want them to support your life as it is and has become. You want them to tell you that things are OK. And is there anything wrong with that?”

machado de assis

"Enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida."

jorge luis borges

Não restará na noite uma só estrela. 
Não restará a noite. 
Morrerei e comigo irá a soma 
Do intolerável universo. 
Apagarei medalhas e pirâmides, 
Os continentes e os rostos. 
Apagarei a acumulação do passado. 
Farei da história pó, do pó o pó. 
Estou a olhar o último poente. 
Oiço o último pássaro. 
Lego o nada a ninguém. 

susan sontag

A tuberculose e o cancro foram utilizados para exprimir não só (como a sífilis) grosseiros fantasmas sobre a contaminação, como também sentimentos extremamente complexos sobre as ideias de força e fraqueza, e ainda sobre energia. Por mais de século e meio, a tuberculose forneceu um equivalente metafórico para a delicadeza, a sensibilidade, a tristeza, o fatalismo; enquanto tudo o que surgia como brutal, implacável, predatório, podia ser representado pelo cancro.

A doença é o lado sombrio da vida, uma cidadania bem pesada. Ao nascer, todos nós adquirimos uma dupla cidadania: a do reino da saúde e a do reino da doença. E muito embora todos preferissem usar o bom passaporte, mais tarde ou mais cedo cada um de nós se vê obrigado, ainda que momentaneamente, a identificar-se como cidadão da outra zona.
O meu propósito não é tanto descrever o que significa realmente emigrar para o reino da doença e aí viver, mas antes as fantasias punitivas ou sentimentais que se constroem acerca dessa situação: não uma geografia real, mas antes estereótipos de carácter nacional. O meu tema não é a doença física em si, mas o uso que se faz da doença como figura ou metáfora. A minha tese é que a doença não é uma metáfora, e o modo mais honesto de olhar a doença - e o modo mais são de estar doente - é o olhar mais depurado, mais resistente ao pensamento metafórico. Mas é praticamente impossível fixarmos residência no reino da doença incontaminados pelas sinistras metáforas que lhe desenharam a paisagem. Elucidar tais metáforas, sacudir o seu jugo, constitui o objectivo deste estudo.

A doença como metáfora / A Sida e as suas metáforas 

frederico lourenço

A pessoa que amamos é a metade que nos falta para nos sentirmos completos? Esta pergunta obteve uma resposta positiva num trecho que faz parte do Banquete de Platão, no qual a raça humana é entendida como descendente de seres que tinham quatro olhos, quatro braços, quatro pernas: tudo a dobrar. Zeus cortou esses seres ao meio, fazendo assim com que cada metadeande desesperadamente à procura da metade que lhe falta. O desejo de completude é a explicação do amor.
Quando nos apaixonamos por alguém, faz parte da sintomatologia própria da paixão percepcionarmos a pessoa amada como a peça que faltava para nos sentirmos inteiros. A descarga louca de dopamina no nosso cérebro que ocorre quando o ente amado sente em relação a nós o mesmo que sentimos em relação a ele dá-nos, de facto, a ilusão de que a proximidade dele e a união sexual com ele nos faz inteiros. Era a metade que nos faltava, era a pessoa de que andávamos à procura, toda a vida esperámos por ela e agora ei-la!

philip roth

"No matter how much you know, no matter how much you think, no matter how much you plot and you connive and you plan, you're not superior to sex. It's a very risky game. A man wouldn't have two-thirds of the problems he has if he didn't venture off to get fucked. It's sex that disorders our normally ordered lives.”

matthieu ricard / jean-françois revel

o monge e o filósofo

MR - Umas das características do Budismo como uma "ciência de mente" é a de que não é suficiente apenas reconhecer e identificar de forma consciente uma emoção ou uma tendência latente e trazê-la de volta à superfície. Precisamos de aprender a libertarmo-nos de tais pensamentos e emoções, impedindo-os de deixar qualquer rasto na nossa mente. Caso contrário, muito facilmente eles darão lugar a uma reacção em cadeia. Um pensamento de desconforto, por exemplo, rapidamente se pode transformar em animosidade e depois em ódio, até que rapidamente toma completamente o controlo da nossa mente, fazendo com que expressemos tais pensamentos em palavras e acções. Quando fazemos algo de negativo a alguém, a nossa paz interior também é destruída. O mesmo é válido para o desejo, a arrogância, a inveja, o medo e tantas outras emoções negativas. Podemos permitir que os nossos impulsos nos façam destruir, possuir ou dominar algo, mas qualquer satisfação que daí advenha será sempre efémera. Nunca nos trará o tipo de alegria que é profunda, estável e duradoura.

JFR - Mas certamente nem todo o sofrimento moral é causado pelo ódio ou pelo desejo?

MR - Não, o sofrimento pode vir de um conjunto vasto de emoções negativas. A chave para trabalharmos a nossa mente de forma eficaz consiste em não apenas identificar os nossos pensamentos e emoções mas também em dissolvê-los, deixá-los desaparecer no vasto espaço da nossa mente. Existem um número de técnicas que podem ser aplicadas com este fim.
A mais importante consiste em não nos concentrarmos no conteúdo das emoções ou nas causas e circunstâncias que as despoletam, mas sim em identificar a sua verdadeira origem. Existem duas formas de meditarmos, como um cão ou como um leão. Podemos tentar lidar com os nossos pensamentos da mesma forma que um cão corre atrás de cada pedra que lhe é atirada, uma após a outra. Isso é na realidade, aquilo que todos nós fazemos a maior parte das vezes.
Quando um pensamento surge, deixamos-nos levar por ele. Esse primeiro pensamento dá depois lugar a um segundo pensamento, depois a um terceiro e finalmente a uma cadeia de pensamentos infindáveis que apenas sustém a nossa confusão mental. Mas a outra forma de reagir, é semelhante à de um leão. Apenas se pode tirar uma pedra a um leão, porque ele se dirige imediatamente a quem lhe atirou a pedra e lhe salta para cima. Esta segunda analogia descreve o tipo de meditação em que nos viramos para a própria origem dos pensamentos e examinamos o mecanismo primário através do qual eles surgem na nossa mente.

julian barnes

“Memory is identity....You are what you have done; what you have done is in your memory; what you remember defines who you are; when you forget your life you cease to be, even before your death.
We live, we die, we are remembered, we are forgotten.”

julian barnes

“There are two essential kinds of loneliness: that of not having found someone to love, and that of having been deprived of the one you did love. The first kind is worse. Nothing can compare to the loneliness of the soul in adolescence.”