Passa no sopro da aragem
Que um momento o levantou
Um vago anseio de viagem
Que o coração me toldou
Será que em seu movimento
A brisa lembre a partida,
Ou que a largueza do vento
Lembre o ar livre da ida?
Não sei, mas sùbitamente
Sinto a tristeza de estar
O sonho triste que há rente
Entre sonhar e sonhar.
Lembro-me ou não? Ou sonhei?
Flui como um rio o que sinto.
Sou já quem nunca serei
Na certeza em que me minto.
O tédio de horas incertas
Pesa no meu coração.
Paro ante as portas abertas
Sem escolha nem decisão.
Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de ficar e ir,
Hei-de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir
Fernando Pessoa
insustentável leveza de ser outro ;)
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