O grego está sempre a fazer a mesma coisa pela primeira vez: é curioso, avidamente curioso, e experimental. Experimenta pela experimentação e não para arranjar forma melhor ou mais eficiente de fazer as coisas. Gosta de fazer coisas com as mãos, com o corpo inteiro, com a alma, poder-se-ia também dizer. Assim se perpetua Homero. Apesar de eu nunca ter lido um único verso de Homero, é minha convicção de que o grego da actualidade se mantém inalterado na sua essência.
Mas pela primeira vez na vida sentia-me feliz com a perfeita consciência da minha felicidade. É bom ser-se simplesmente feliz; é um bocadinho melhor saber que se é feliz; mas compreender que se é feliz e saber porquê e como, de que maneira, por que concatenação de acontecimentos ou circunstâncias, e continuar feliz, feliz no ser e no saber, bem, isso ultrapassa a felicidade, é a ventura absoluta, e quem tem juízo na cabeça devia matar-se nesse exacto momento para resolver logo a questão. E era assim que eu me sentia - só não tive a força nem a coragem de me matar naquele sítio e naquele momento.
Ficava horas a fio deitado ao sol, sem fazer nada, sem pensar em nada. Manter a cabeça vazia é uma proeza, uma proeza muito saudável. Passar o dia inteiro em silêncio, não ler jornais, não ouvir rádio, não ouvir bisbilhotices, passar o dia numa profunda e completa preguiça, profunda e completamente indiferente ao destino do mundo é o melhor remédio que uma pessoa pode dar a si mesma. O que se aprende nos livros escoa-se gradualmente, os problemas liquefazem-se e dissipam-se; os laços rompem-se suavemente; o pensamento, quando condescendemos em entregar-nos a ele, revela-se muito primitivo; o corpo transforma-se num instrumento novo e maravilhoso; olha-se para as plantas, ou para as pedras, ou para os peixes, com olhos diferentes...
A ausência de jornais, a ausência de notícias sobre o que fazem os homens em diferentes partes do mundo para tornar a vida mais ou menos suportável é uma bênção única, e a maior que se pode imaginar. Se conseguíssemos, pelo menos, eliminar os jornais, seria uma grande evolução, tenho a certeza disso. Os jornais geram mentiras, ódio, ganância, inveja, desconfiança, medo, maldade. Não precisamos da verdade, tal como ela nos é servida nos jornais diários. Precisamos de paz, e de solidão, e de ociosidade.
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