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pier paolo pasolini

É quase meia noite, o Taj Mahal tem o ar de um mercado que fecha. O grande hotel, um dos mais conhecidos do mundo, escavado de um extremo a outro por corredores e salões de pé-direito muito alto (dir-se-ia que se anda à roda no interior de um enorme instrumento musical), está cheio tão-só de boys vestidos de branco, e de porteiros com turbantes de gala, que esperam a passagem de táxis equívocos. Ainda não é altura, oh, não é altura de me ir deitar, nesses quartos grandes como camaratas, cheios de móveis de um desolado século XX retardatário, com ventiladores que parecem helicópteros.
São as primeiras horas da minha presença na Índia, e eu não sei dominar a fera sequiosa fechada dentro de mim, como numa jaula. Convenço o Moravia a dar pelo menos dois passos fora do hotel, e a respirar um pouco do ar da primeira noite indiana.
Assim saímos, para a estreita marginal que corre por de trás do hotel, pela saída das traseiras. O mar está sossegado, não dá sinais da sua presença. Ao longo do parapeito que o contém, há automóveis parados e, perto deles, esses seres fabulosos, sem raízes, sem sentido, carregados de significações duvidosas e inquietantes, dotados de um fascínio poderoso, que são os primeiros indianos de uma experiência que quer ser exclusiva como a minha.
São todos mendigos, ou dessas pessoas que vivem nas imediações de um grande hotel, entendidos na sua vida mecânica e secreta: têm uma faixa branca a envolver-lhes os flancos, uma outra faixa por cima dos ombros, e alguns deles, outra ainda enrolada à volta da cabeça: são quase todos os negros de pele, como que negros, alguns deles negríssimos.

Pier Paolo Pasolini
Um cheiro da Índia

Pasolini em 1961, faz uma viagem à Índia na companhia de Alberio Moravia e Elsa Morante.
O Moravia tem outro livro, Uma ideia da Índia, da Editora Tinta da China.

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