"O verdadeiro hábito é aquele que nos coloca no coração da vida, isto é, no núcleo mais autêntico, nesse lugar onde realmente somos. E a formulação o coração da vida é ao mesmo tempo uma formulação não habitável, se quisermos. Porquê? Porque nós vivemos muito à superfície, vivemos a esbracejar, vivemos a fazer, vivemos a correr, a mover-nos de um sítio para o outro, vivemos das imagens e das representações, vivemos dando respostas às solicitações que constantemente nos são feitas e , raramente mergulhamos no coração da vida.
Há um ensaio de Virgínia Wolf que marcou muito a defesa dos direitos das mulheres, um conjunto de ensaios a que ela deu um título que gostaria de trazer para esta reflexão, porque penso que é daquelas fórmulas iluminantes. o título é "um quarto que seja seu". E no fundo quando falamos de habitar o coração da vida é a isto que nos referimos. Nós precisamos de um quarto que nos pertença. Precisamos de um lugar que nos reflicta, precisamos de um hábito que seja mais que um hábito, isto é, um tipo, uma mania, uma forma de aparecermos a nós próprios e aos outros. Precisamos de um hábito que seja mais do que isso. Um hábito que nos revista, que nos expresse, que decline o silêncio, o mistério, a imensidão, o aberto do nosso próprio ser, e não esta vida condicionada, esta vida diminuída, esta vida cheia de retrações, esta vida que não é vida.
Um dos maiores obstáculos na vida espiritual é a perfeição, ou a ideia de perfeição, ou o desejo de perfeição, porque no fundo é o desejo de sair para fora da nossa vida. De viver uma outra, de imaginar uma outra vida, de viver com a culpa ou viver com a miragem de uma vida que não é a nossa."
O perfeccionismo é uma arma de dois bicos.
ResponderEliminarBom, trazeres aqui esta citação.
Beijo.
Este texto vem na sequência dos retiros/conferências que o Tolentino costuma fazer. Tem partes maravilhosas. Nada na vida é perfeito, e ainda bem que é assim.
EliminarUm beijinho